Quando um estudante finalista de Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes do Porto se pergunta qual deve ser o sentido profissional que deve dar à sua vida e o estudante se chama Miguel Januário, a resposta parece simples: não deve ser, sem dúvida, um “agente maquilhador” da sociedade de consumo que continua a mentir aos seus públicos. E assim surge o projecto MaisMenos que inunda Porto e Lisboa com o símbolo ± – nulidade matemática interpretada pelo artista (também já se tornou activista, inerentemente) que, na ironia de uma utopia, visa tornar neutro o processo de comunicação que nos invade através dos media todos os dias de forma tão rápida e desordenada. O MaisMenos é um manifesto à consciência pessoal e humana, através do excitamento próprio da publicidade, criticando-a. Isto coloca em crise a sociedade de consumo, o capitalismo e a falta de noção social.

É inevitável, hoje em dia, andarmos pelas ruas e não termos referências mais menos. “Em Portugal existe pouca intervenção”, afirma Miguel. Várias são as manifestações do artista: sejam símbolos espalhados em cartazes, stencils ou autocolantes ou ideias e frases que se tornam a identidade da marca ou anti marca, dependendo da perspectiva de cada um. O que é certo é que todos são dotados de um sarcasmo controverso. Este explica que o projecto acaba por se tornar no pró-prio produto e que por esta razão, o mercado acaba por acatar este mesmo produto que é completamente contra o mercado. Confuso? Não é. É apenas a arte urbana com personalidade própria que quer fazer a sociedade pensar por ela própria, fazendo ainda assim, parte do sistema onde nos inserimos.

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“Os designers, como os que fazem parte desta elite, têm margem de manobra para operar mudanças sociais. Acredito que a arte pode ajudar o mundo.”, diz Miguel Januário. E é com esta convicção que este caso sério de identidade corporativa até possui os seus eventos próprios. Foi exemplo disso o dia em que o artista propôs a substituição do brasão da bandeira portuguesa pelo símbolo do MaisMenos.
Tudo isto vai de acordo com a dívida pública e os pedidos de ajuda externa, “ora mais, ora menos”… À moda portuguesa, também foi a acção Ego Sum Panis Vivus, onde Miguel não perdeu a oportunidade de ir jogar golfe usando pães como bolas (outros dos alvos de crítica feroz) para as escadarias da Assembleia da República no dia da demissão de José Sócrates.
Writter conhecido no mundo da arte urbana, denota influências de artistas como Bansky, Obey e toda a sua conjuntura humana, bem como o projecto português Underdogs. O que é inquestionável é que este projecto possui uma dinâmica muito própria, com uma imagem forte que cria no público o reconhecimento visual ou até mesmo emotivo. É a provocação que suscita o interesse.
A IdiotMag conseguiu falar com o Miguel, que, apesar de muito atarefado com novos projectos
(aconselho-vos a estarem atentos), se prontificou de imediato a colaborar connosco e a responder-nos a todas as perguntas que queríamos ver respondidas.

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Intervenção urbana aplicada no Porto e Lisboa que visa a crítica social, entre outras, através do grafitti, do stencil e autocolante. MaisMenos é igual a zero e representa a
neutralidade e a transparência na comunicação. O projecto é idealizado por Miguel Januário na sua tese de final de licenciatura. Grande feedback por parte do público com ironia associativa forte e directa que objectiva o pensamento individual, ao invés da cultura massificada a que hoje se assiste.

Idiot: Conta-nos sobre como tudo isto surgiu, e quais as tuas referências para este projecto.
Miguel: O MaisMenos surge num contexto académico,
quando no final do curso de Design de Comunicação (na fbaup) me questionei sobre o papel do design na sociedade de consumo e do meu papel como ‘maquilhador’ dessa sociedade.
Como já tinha um background ligado ao graffiti e à streetart, a minha vontade
foi criar um projecto que tivesse uma componente teórica e prática forte, sendo a teoria baseada na pesquisa
e na observação da sociedade actual (em termos económicos, sociais e políticos) e o mote conceptual para o lado prático, que se iria sustentar na intervenção continuada na rua. Assim,
depois de muita reflexão, surge o ±, uma marca que considera que as marcas são a energia da sociedade de consumo (+ – como os pólos das pilhas) que pretende anular (+ – = 0), de uma forma utópica, a comunicação e as restantes marcas, considerando-as o motor para todas as diferenças sociais (uns com + e outros com -). No fundo será o ‘No logo’, cujo livro da Naomi Klein com o mesmo título foi uma das grandes inspirações para este projecto. Outros autores como o Noam Chomsky também contribuiram de uma forma muito intensa para a inspiração e criação do maismenos.

Idiot: As mensagens que passas para o público são muito fortes. Capitalismo, sociedade de consumo, a democracia exercida no mundo ocidental são temas abordados por ti. De onde e como surgem estas ideias? E como é que as trabalhas até chegares a fase final em que a intertextualidade associada a ironia faz destas mensagens algo tão concreto como isto?
Miguel: É um trabalho de pesquisa contínuo, de informação, de observação. Penso que também terá a ver com o meu espírito e a forma como observo a realidade em que vivemos. Depois são conceitos que vou pensando, umas vezes durante muito tempo, outras vezes surgem como ideias instantâneas num qualquer momento. Normalmente quando tenho uma ideia, aponto-a e depois vou pensando sobre ela durante algum tempo. Quando surge a oportunidade ponho-a em prática ou por vezes de imediato. Algumas morrem na praia e nunca são executadas, porque quando as vejo de novo sinto que já não fazem sentido.

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Idiot: Achas que o MaisMenos choca as pessoas? De que maneira?
Miguel: Poderá eventualmente chocar pessoas menos preparadas para a frontalidade e para o pensamento crítico. Para as restantes espero que seja inspirador e que estimule, precisamente, esse pensamento crítico. Isso é o mais importante. E que ao mesmo tempo demonstre que devemos sair e mostrar aquilo que pensamos, que temos essa possibilidade: a de contestar, de pensar, de saber e de sermos livres pensadores. Além disso, que estamos atentos.
Idiot: Em todo o percurso deste projecto nunca tiveste chatices a mais e apoios a menos?
Miguel: Nunca tive chatices, por estranho que possa parecer. Como pinto graffiti há muitos anos, já aprendi a estar e a fazê-las! Não sei o dia de amanhã e pode correr menos bem um dia, mas isso não me preocupa. A ideia de ser preso ou ter problemas com a justiça parece-me aliciante, pois poderá trazer mediatismo ou curriculo, o que é bom para o projecto! Hoje faço tanta intervenção de dia como de noite, sem receios. Cada vez penso que quanto mais à vontade fazemos as coisas, melhor elas correm. Quanto a apoios, sou eu próprio, com o meu trabalho do dia a dia (sim, porque eu continuo a ser designer, realizador, etc, e a trabalhar
para o inimigo!), que invisto no MaisMenos. Eventualmente quando vendo peças de exposições, mas não é isso que procuro quando o faço. Nunca vou para uma exposição com a preocupação de vender, mas sim de mostrar.
Idiot: Há algum projecto interventivo em que devíamos andar de olho?
Miguel: Estou neste momento a começar a planear 2012. Estou com algum trabalho, o que não me permitiu ainda planificar o ano, apesar de já ter coisas pensadas e marcadas. Está para muito breve o momento de introspecção e de execução. Os tempos que vivemos são estimulantes e, para a intervenção, os mais apropriados.

Idiot: O que pensas de toda a arte urbana que hoje se faz? Achas que deve haver uma distinção entre arte e rabiscos?
Miguel: Eu vejo o graffiti/streetart/interven-ção/pichagem/etc como um movimen-to generalizado com diversas vertentes.
Vejo esse movimento como uma forma de acção, seja ela mais ou menos (!) figurativa, seja mais ou menos técnico, mais ou menos conceptual.
Vejo-o como uma forma que as pessoas encontraram para mostrar os seus sentimentos, pensamentos, etc. Num mundo de comunicação e informação, onde só aqueles que têm poder podem bombardear o espaço com imagens, a pessoa comum adaptou-se a esse paradigma e faz as suas imagens. Uns com melhor execução, outros menos, uns mais pensados, outros sem noção nenhuma do que estão a fazer. Mas não será tão legítimo se somos influenciados, mesmo inconscientemente, por esse meio tão poderoso que é o da imagem? E não será também este movimento uma forma de reclamar o espaço público, que cada vez menos nos pertence? Claro que se me perguntares se há graffitis ou expressões mais complexas que outras, eu direi que sim.
Mais interessantes, importantes e marcantes? Sim, mas todo o movimento poderá ser artístico, é actual e tem um contexto, tem uma raiz e um motivo, o que faz no seu conjunto, com que tudo isso seja uma forma de expressão artística contemporânea.
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Convicções sociais, económicos ou políticas? O que é certo é que mensagens direccionadas
à sociedade de consumo globalizado a que hoje assistimos e fazemos parte pode facilmente por-se à prova. Assim, sem mais nem menos.

Redatora: Mariana Ribeiro