A mistura que é boa – JaviPahg, Derko,Arkoh, Purone e Rdick -, o colectivo madrileno entusiasta que se junta para mudar o mundo em nome da arte. A mistur que é boa pega no graffiti, oferecendo-lhe um estilo muito próprio, adaptado ao contexto espacial em que é inserido e nós gostamosdisso. Juntando a esta mistura a pintura em mural, a ilustração e o design gráfico só poderia resultar daqui algo explosivo. A mistura ecléctica do colectivo que vale por si mesma, já expôs no Museo Nacional Reina Sofia e no DA2 de Salamanca. Hoje conta com um carteira de clientela distinta e invejável, como o Google, a Microsoft, a Sony Music ou a Adidas.

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Coletivo Boa Mistura, barrio de El Chorrillo, Panamá

Com uma vertente muito humana, factor essencial para se vencer no mundo artístico, a Boa Mistura explica-nos que é a força do grupo que vence aqui: “visões distintas que se complementam, influenciam e misturam para formar sempre algo melhor”. Amigos de longa data, afirmam que este é mesmo o melhor método do seu sucesso, por isso se afirmam como o coletivo composto por cinco cabeças, dez mãos, mas um só coração. É infinito o trabalho do grupo. Difícil escolher as peças para vos mostrar, sem dúvida, fomos falar com os espanhóis que fazem da mistura algo muito especial.

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Diamond Inside, Cidade do Cabo, África do Sul. Mais uma vez com o lado humano em acção, a Boa Mistura realizou uma série de trabalhos no bairro do Woodstock, no centro da cidade. Aqui, cada trabalho centrou-se em assuntos específicos, mas todos relacionados com as causas humanitárias e que se põe em contacto com as pessoas que ali vivem, nunca esquecendo as influências africanas, que se pôem aqui em destaque. O projecto é composto pelos trabalhos Discover the Diamond Inside You, Fight for your Dream!, One Heart, One Love e We all Share the same Roots.

Idiot: Boa Mistura, parabéns pelo projecto que têm vindo a desenvolver na Brasilândia. Primam pela originalidade e têm um dos estilos mais marcantes que temos visto por aí. Como surgiu esta iniciativa?
Boa Mistura: A ideia surgiu no lugar – Vila Brasilândia. No nosso processo criativo, é necessário uns dias prévios para perceber o local, cheirá-lo, tocá-lo, falar com os moradores para poder realizar uma intervenção especial e única para esse lugar.
As vielas e os becos são onde se encontra a vida interna na favela. O acesso às casas e o contacto entre a parte baixa e a parte alta do morro fazem com que a sua morfologia seja muito completa, cheia de planos de distintos materiais. Por isso a nossa intervenção homogeniza todos esses materiais concentrando-se numa única cor. E aproveitando essa complexidade de planos, as palavras concentram-se de modo que só podem ser compreendidas desse mesmo único ponto.
As palavras que utilizámos são muito inspiradoras para o dia a dia dos moradores. E o facto dos moradores nos ajudarem a pintar é muito importante, porque é o próprio morador que transforma a sua envolvência, sente-a, e deste modo torna-se ainda mais seu.

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Luz nas Vielas, São Paulo, Brasil, faz parte da série Crossroads, um projecto de arte urbana que visa intervir junto das comunidades desfavorecidas de forma a usar a arte como forma de inspiração. Patrocinado pela Embaixada de Espanha no Brasil e com a participação dos habitantes da favela, o projecto conta com cinco conceitos: beleza, firmeza, amor, doçura e orgulho.

Idiot: Consideram-se uma boa mistura? Em que sentido?
Boa Mistura: Antes de mais somos 5 amigos e trabalhamos há mais de 10 anos juntos. Cada um tem uma formação académica distinta: JaviPahg, em Arquitectura; Rdick, em Engenharia; Arkoh, em Design Gráfico; Derko, em Belas Artes e Purone em Publicidade. São 5 pontos de vista distintos que se complementam para um resultado único.

Idiot: Com certeza têm uma área dentro do vosso trabalho que vos apaixonaona. Qual é? Dividem-se pela vocação que cada um tem dentro de um projecto?
Boa Mistura: Amamos o nosso trabalho, criar, pintar, desenhar, estar juntos… É o que nos move a acordar com um sorriso todos os dias. Enfrentamos os projectos do mesmo modo, independentemente se são de pintura mural, design gráfico ou relacionados com Arquitectura. Essa diversidade é que cria um resultado especial.

Idiot: Não posso deixar de vos perguntar o porquê de usarem um nome português. Têm alguma ligação ao nosso país?
Boa Mistura: O Porto apaixona-nos. É uma das cidades com mais encanto que já estivemos. Ir ao Café do Cais ou tomar um café no Guarany é uma delícia. Nas crews de graffiti é muito comum, à excepção de Espanha, utilizar nomes em inglês ou siglas. Queríamos marcar a diferença e decidimo-nos por Boa Mistura. Com os anos o nome foi sendo premonitório. E porque no dia de hoje não há melhor definição para nós.

Idiot: Acham que o graffiti e as pinturas na parede continuam a ter uma conotação negativa na nossa sociedade?
Boa Mistura: O graffiti é um reflexo da nossa sociedade material e individualista. É certo que há uma vertente mais vandálica e que deteriora a cidade, mas há gente com imensa sensibilidade que trabalha nas ruas. Trabalhamos com vontade de melhorar, de inspirar e de contribuir com um pouco de cor ao nosso dia-a-dia. Como a sociedade tem os seus caminhos tão marcados, o sector conservador vê-nos como algo negativo.
Porém, apesar de muitas vezes pintarmos de forma ilegal, assinamos sempre a obra, por entendermos que não estamos a fazer nada de mal.

Idiot: Porquê Purone e Rdick terem escolhido a arte, se as suas formações nada têm a ver com isto?
Boa Mistura: Sempre o fizemos! Rdick, mal acabou o curso de Engenharia decidiu viajar durante quatro meses pela Índia. Voltou com um objectivo muito claro: queria viver a arte com toda a sua pujança. Com Purone acontece o mesmo, sempre teve um lápis na mão, desenhando sem parar. É o que sentimos nos nossos corações…

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Diamond Inside, Cidade do Cabo, África do Sul

Idiot: São os melhores do país?
Boa Mistura: Os melhores do país? Não, não somos, mas também não o pretendemos ser. Como somos felizes e com o nosso trabalho fazemos os outros felizes, é a melhor recompensa que podemos ter.

Texto: Mariana Ribeiro