Escrever para uma revista de idiotas prevê-se um caminho difícil mas motivador. Difícil porque podemos não ser idiotas o suficiente, mas motivador porque poderá haver idiotas que leiam com tamanha idiotice as nossas ideias, por dentro e por fora delas, que nos deixem inchados de alegria. Por dentro das ideias porque muitos são os labirintos que nos encontram e desencontram, e também por fora delas porque puramente estéticas. A arte precisa de provocação, de se provocar e conseguir chegar ao choque público.

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ilustração: André Ventura

Chocar é a causa do despertar, do tomar nota, do olhar, do ver, do sentir, do expelir em manifestações físicas o agrado ou o desagrado. A arte só vive se nos chegar perto e nos provocar tesão. Se vontade não houver para este tipo de pornografia intelectual e sensitiva, então tudo deixa de ter interesse e a arte morre por excesso de nada.

Aqui queremos não crescer mais, não queremos ser adultos nem almejamos os rebanhos ordenados. Aqui pretendemos pensar sem medo, sem moral, sem o politicamente correcto das diplomacias instaladas. Vamos olhar para as artes como um eixo transversal, transmigrado, transsexualizado, transportado, atirado transformado para a fornalha vulcanizada do gosto… e que bom que ele não perdoa, e que bom que ele explode e atira o seu magma infinito para um mundo onde a única consequência é observar. Que maravilhoso poder provocar! Aqui, ser Idiota é ter ideias e saber o que elas provocam quando assumidas num corpo manifestamente corrosivo, alternativo, desviado do esteticamente instituído, do socialmente estabelecido, do artisticamente aceite. Não aceitamos, portanto, nada que provenha do normal andamento das coisas só porque, simplesmente, estamos habituados a comer e calar. Não aceitamos regras e estamos contra elas; Estamos fartos de mecenas que ditam os caminhos artísticos com que cada sociedade se deve reger, como aulas de preparação para carneiros. Quem quer um rebanho ordenado de cordeiros mecenáticos, onde o patrocínio declama poesias feitas por engenheiros técnicos e por administrativos que lambem a planta dos pés (muito pouco suada) de quem tem dinheiro? Lembro, aqui e agora, a memória de Raphael Bordalo Pinheiro e das suas caricaturas dos gordos burgueses todos em vara e bem sujos de honestidade. Assumimos aqui a vanguarda de Pessoa, Sá-Carneiro ou Almada Negreiros.

É nosso desejo revelar e relevar todos os Designers, todos os artistas plásticos, todos os poetas e escritores, todos os encenadores e realizadores que não estejam contemplados pelo negócio da arte, aqueles que a visibilidade desfoca por falta de oportunidade e aqueles que me esqueci de incluir neste texto; desejamos, também, assumir um papel inflamado de luta contra esta barroca e fútil intenção do provincianismo ornamentado dos empresários que se querem bajular e regozijar de tão apoiantes do estético. Onde está a nossa identidade, tão perdida pelos caminhos das maiorias, tão ditada pela mão pesada dos outros? Onde está cada um de nós e quem somos verdadeiramente? Um monte de carne para adornar os ossos? Embalados de comida vegetariana para enganar o sangue palpitante das entranhas artísticas? Seremos mais do que isso. Assumimos sempre o confronto das ideias, das perspectivas periféricas, isoladas, escondidas pela falta de oportunidade, apontamos os dedos todos ao negócio comercial enquanto promotor de carreiras, em detrimento das fontes inesgotáveis da criação estética e da arte no seu sentido totalmente absorvente.

Prometemos, sem nos preocuparmos, não prometer absolutamente nada. Somos livres e bebemos vinho que inebria, fumamos a natureza toda porque bela, e pintamos, desenhamos, escrevemos, realizamos, encenamos toda a impiedosa provocação. Este é o objectivo desta coluna: Beber à falta de perdão da criatividade, das ideias, dos idiotas, aliado ao facto de que nos propomos, claramente, a não respeitar todos nem quaisquer poderes instituídos, nem as leis da república nem dos bons costumes, nem nada que fira a liberdade da criação. Neste espaço não existe ordem, come-se desordem, não existe poder, respira-se liberdade… Queremos, acima de tudo, ter uma consciência crítica e dize-la, manifestá-la num poema que sofre de amoralidade, num texto literário enjeitado pela semiótica mais rígida, numa crónica de maus costumes… Acima de tudo queremos PROVOC’ARTE.

texto: Rui Noronha Ozorio