Entrando na Escola do Alto da Fontinha, ali para os lados de Faria Guimarães, lá em cima, mesmo para o alto da cidade, dá-se de caras com várias situações: no pátio daquele espaço que durante tantos anos funcionou como escola primária, de onde tantos putos saíram a saber ler e escrever, a fazer contas e a perceber como a natureza opera o meio que nos rodeia, um grupo faz malabarismo e ri, ri muito. Do outro lado, há outro grupo em que uns rapam parcelas de cabelos aos outros, entre as construções de rastas e cabelos espetados.

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Fotografias: Nuno Dias

Movimento Es.Col.A, o Espaço Colectivo Autogestionado que deu que falar

Ao fundo, um grupo de miúdos, miúdos pequenos, brinca e anda de bicicleta a querer imitar o trânsito que está fora daqui e também todo o quotidiano que não existe ali. Todos estão felizes e todos se dão bem. Uma criança de três anos está por ali com um conjunto de estrangeiros, alemães, holandeses, talvez, com os seus 50 anos e um grupo de adolescentes, frescos e saudáveis de estilos comuns, alternativos, de vez em quando, ou só mesmo de pensamento. Aqui não há distinções e aqui não há quem mande. Há apenas uma causa e esta quer-se com o coração: a ocupação serve para, além da autogestão, abolir as hierarquias e partilhar a informação que todos têm para dar. O que aconteceu: há um ano, um grupo de pessoas, unidas pelos mesmos interesses, ocupou a escola do Alto da Fontinha, há muito desactivada, e decidiu dar um rumo melhor ao núcleo vandalizado, centrado no tráfico de drogas e com constantes queixas dos moradores da Fontinha. Na altura, os vizinhos gostaram de os ter por lá. Apesar do “aspecto de um ou outro”, foram estes que trouxeram a dinamização do espaço, e isso foi bem visto aos olhos da população local. Um dia no Es.Col.A é do mais completo que pode haver. Aqui não há espaço para o aborrecimento, a menos que essa seja uma actividade que se queira, efectivamente, ter. Além dos amigos que se arranjam por lá, foi o apoio educativo às crianças que fez com que este projecto fosse tão bem acolhido. É a partir da tarde que os membros se juntam nas actividades: a capoeira, as aulas de yoga, as oficinas de música, o xadrez, as aulas de Português (há muitos estrangeiros no Es.Col.A) ou os jantares comunitários estão ao alcance de todos. Dinheiro?

Aqui, paga-se com o coração todo o conhecimento adquirido. Ao falarmos com um membro integrante do movimento
Es.Col.A, Marco, este explica que o princípio é simples: “eu ensino-te francês e tu ensinas-me a tocar viola”. Neste espaço, a autogestão é a dona da casa. Este é o princípio onde o dinheiro ou as ordens não são necessárias, pois aqui opera-se com outra mentalidade. “Não há ninguém a mandar porque não é preciso ninguém mandar”,diz Marco, com naturalidade. As ajudas de mercearia também são suficientes.
Porém, todos têm que ajudar a garantir a subsistência. Se o Es.Col.A é de todos, por que não haveria de ser assim?

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O imaginário da cultura anarco-punk

O projecto do Espaço Colectivo Autogestionado, ao qual se denomina pela sigla de Es.Col.A, remete-nos para o imaginário da cultura anarco-punk, já há muito praticada pelas minorias em toda a Europa e com especial relevo em cidades muito urbanas e com demasiada especulação imobiliária, como Berlim ou Londres. Originário do termo squat, ocupar é, nada mais, nada menos, que um movimento social, muitas vezes associado a uma tribo urbana, que ocupa determinado espaço abandonado sem permissão dos seus proprietários, sejam eles privados ou públicos, com o objectivo de convívio e promoção de actividades culturais ou políticas. Questionados sobre as convicções políticas dos okupas da Fontinha, Marco é claro: “aqui há total liberdade de pensamento. Admitem-se ideologias políticas, mas não em grupo. No fundo, há princípios que são fundamentais para todos”.

É por isto que todas as decisões e rumos que a Es.Col.A deve tomar são debatidos em assembleias públicas. A vontade de melhorar o espaço foi sempre notável. Em todas as vezes que a Idiot Mag lá passou, pudemos constatar a limpeza, organização e, sobretudo, a pacificidade que lá morava. Ali dentro nada falhava – o que falhou foram os desentendimentos entre estes e a Câmara Municipal do Porto, Câmara esta que se avista bem das janelas do primeiro andar das instalações do Es.Col.A.

O despejo I, o despejo II, a ilegalidade
e a revolta

Passado 30 dias da ocupação e com vários projectos para o espaço, a polícia entrou no local destinada a proceder ao despejo – do material e dos okupas.

Tal acção seria de prever, porém o que mais indignou esta comunidade foi o desinteresse da Câmara Municipal do Porto pelo projecto, sem sequer possibilidade de reconsideração. Estes não desistiram e instalaram-se no Largo da Fontinha, com ajuda dos vizinhos e começaram o movimento com a força que hoje podemos conhecer e a sua pujança nunca mais esmoreceu. Para estes foi “estranho estar a ajudar uma criança a fazer os trabalhos de casa no chão
da rua”. Foi com todo este envolvimento e apoiados pelos órgãos de comunicação social, que decidiram iniciar um diálogo com a CMP. Os responsáveis autárquicos afirmaram que para o diálogo poder existir deveriam criar uma associação e cumprir todos os processos burocráticos que lhes eram exigidos. Porém, estes queixaram-se de que de nada disto teria valido a pena, pois nada teria acontecido até então. De volta ao Es.Col.A, os membros decidiram
manter-se no terreno até algo mais acontecer. Foi então que os okupas foram convidados pela vereadora da Coesão Social a irem até à Câmara para assinarem um contrato, onde, além de poderem ficar no espaço até 30 de Julho, teriam que pagar uma renda simbólica de 30 euros, mensalidade que vai de acordo com os grupos IV e V dos bairros sociais. Os ocupantes do Es.Col.A não gostaram de ver o seu projecto com um prazo definido e decidiram não assinar o contrato, onde não lhes era permitido, sequer, renovar contrato. Assim, no último 19 de abril, o dia não foi pacífico na cidade do Porto. Pelas 10h, um corpo policial forte, que contou com membros da PSP, da Polícia Municipal e dos Bombeiros desocupou a escola com recurso a material de arrombamento e máscaras de combate a incêndios. Além disso, a força policial bloqueou toda a rua da escola, não permitindo a passagem a membros nem transeuntes.

Os membros do projecto decidiram então iniciar uma resistência pacífica, que acabou por não ser pacífica de ambos os lados. A polícia decidiu identificar os indivíduos, enquanto um dos okupas, no meio de todo o confronto, chamar “filho da puta” a um agente da autoridade. Resultado:
levou com um “taser”. A partir daqui a situação descontrolou-se. Três detidos foram levados para a esquadra do Heroísmo, para onde todos os membros do movimento se transferiram em solidariedade com eles. A partir daqui, um forte número de manifestantes iniciou uma marcha até à Câmara do Porto. “Soltem os amigos da Fontinha!”, gritavam em uníssono, entre lágrimas e decepção. O espírito foi sentido para quem passou pela manifestação. Ao chegar à Câmara sentiu-se uma tensão forte e já outro corpo policial estava à espera dos manifestantes. Aqui, foram várias as ofensas a Rui Rio, presidente da CMP e quem ordenou o despejo. Foi aqui também que se ditaram palavras de ordem e mensagens positivas. E aqui, também um indivíduo, desesperado, regou-se com gasolina, sendo logo recolhido pela polícia.

Todo este aparato seguiu até à Fontinha, onde vários manifestantes permaneceram.
Em vão e cientes disso, os membros do Es.Col.A promoveram uma manifestação programada para o 25 de Abril, onde as manifestações de liberdade têm mais ânimo para resistir e existir. Chegado ao dia, foram milhares os que se concentraram na Câmara. Animados, seguiram para as instalações do antigo Es.Col.A. Aqui não houve felicidade maior: retiradas as chapas postas dias antes pelos funcionários da Câmara, foram milhares as pessoas, apoiantes do projecto e atraídas pelo dia da liberdade, que tanta emoção podia trazer, entraram na escola do Alto da Fontinha e ali permaneceram.

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Toda a união que se criou aqui foi importante para o movimento, que naquele dia se sentiu mais apoiado que nunca e percebeu a força que aqui se vivia. Proclamava-se a vontade do povo e, de facto, esta foi cumprida aqui a 25 de Abril.

Contactada a CMP sobre a questão dos despejos, estes remeteram-nos para o comunicado oficial, sem nos darem possibilidade de expor questões. Até ao fecho de edição da Idiot, os factos ficaram-se por aqui, porém, a Idiot Mag irá acompanhar no seu site todo o desenvolvimento e desfecho sobre o Es.Col.A.

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Texto: Mariana Ribeiro