“O PORTO É A CIDADE DO CINEMA. O CINEMA EM PORTUGAL NASCEU PRATICAMENTE AQUI.”

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Aniki Bóbó (1942)

Era uma vez uma cidade que respirava cultura, onde as cores de qualquer tela eram mais vivas, o dedilhar das cordas de uma guitarra era mais forte e a poesia saía da boca dos boémios com a mesma facilidade que as lascas tendem a sobressair num móvel. Nessa época as gentes da cidade corriam para salas escuras, sentavam-se em cadeiras de veludo e deixavam de existir durante o tempo que ali estivessem. Com o cinema viajavam, amavam, sonhavam. Hoje, as pequenas salas kitsch foram substituídas por espaços gigantes em grandes superfícies comerciais, infestados pelo cheiro a pipocas e violados pelo barulho desrespeitador do persistente mastigar e sussurrar e dos irritantes toques dos telemóveis daqueles que ainda não descobriram como colocar o aparelho em silêncio.

No entanto, fora dos bastiões dos centros comerciais, persistem e começam a surgir novas iniciativas que mantêm acesa a chama, que o cinema tido como alternativo acende nos amantes da película.

A área metropolitana do Porto é palco de alguns festivais já com renome internacional, como é o caso do Fantasporto, do Curtas de Vila do Conde, e do Black & White. Para além dos certames, esta zona é também a casa de alguns cineclubes que vão surgindo quer no seio académico, quer no da população em geral. Jaime Neves, fundador do Black & White, justifica a existência destas iniciativas com apenas uma frase: “O Porto é a cidade do cinema. O cinema em Portugal nasceu praticamente aqui.”

CINEMA A PRETO E BRANCO

“O preto e o branco transmitem-nos uma emoção que a cor não transmite. Dão uma outra liberdade ao espectador, pois um cinzento pode ser percepcionado como azul ou como verde, por pessoas diferentes. Ou seja, eu construo a cor na minha cabeça”. Esta é uma das principais razões que levam Jaime Neves a acreditar que o cinema a preto e branco é uma estética que veio para ficar, não fosse o grande vencedor dos Óscares de 2012 (O Artista) um filme a preto e branco.

O fundador do festival Black & White vai mais longe ao dizer que é in ver-se um filme a preto e branco, o que explica o crescente sucesso do certame. Se antes este género de cinema era encarado como algo enfadonho, hoje é já considerado algo “super atual”, isto porque “é necessário criar algo novo para esta geração e cinema a preto e branco é realmente algo de novo para eles”, explicou Jaime Neves.

A paixão deste professor da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, pelo cinema, começou quando tinha 16 anos. Nessa época surgiu o Cineclube de Vila do Conde, ao qual se associou, começando “a ver filmes diferentes”, indicou. As aulas do cineasta Lauro António e a cobertura jornalística do Curtas de Vila do Conde, enquanto trabalhava como locutor de rádio, deram a Jaime Neves a certeza de que o seu futuro teria de passar pelo mundo do cinema.

Em 2004 criou o festival de cinema a preto e branco Black & White, que conta já com nove edições, sendo que a última aconteceu de 18 a 21 de abril. Uma grande parte das curtas-metragens presentes neste certame são trabalhos premiados, isto porque são escolhidas a partir de outros festivais. Logo na primeira edição, o Black & White exibiu o filme 7:35 de la mañana, realizado por Nacho Vigalondo, que foi nomeado para um Óscar na categoria de Melhor Curta-Metragem. As viagens de Jaime Neves e da equipa do Black & White a outros festivais, permitem perceber que este evento “está bem cotado, sobretudo por ser um festival diferente”, afirmou.

Apesar de decorrer em pleno seio universitário o Black & White não é um festival académico, pois alcança já um estatuto internacional.

CINECLUBISMO

Contudo, nem todas as iniciativas que surgem no meio académico são obsoletas. Algumas faculdades têm-se dedicado a atividades extracurriculares, que acabam por absorver um público fora do meio académico. É este o caso no cineFPCEUP, o cineclube da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, que surgiu há pouco mais de uma ano, impulsionado pela vontade de partilhar a paixão pela sétima arte.
Para Ângela Santos, uma das responsáveis do cineFPCEUP, “o cinema sempre foi mágico e sempre teve a capacidade de mobilizar um elevado número de pessoas”. Se por um lado o cinema confere às pessoas uma sensação de pertença, de proximidade para com o outro, por outro lado, também potencia a troca de ideias e, em certos casos, pode levar a uma tomada consciência crítica e social. Ângela Santos acredita que “um cineclube universitário deve procurar o seu espaço no meio e ter um propósito educativo e de reflexão, para além do lúdico”. Esta premissa é seguida em todas as sessões do cine FPCEUP, durante as quais há sempre um tempo destinado à análise e reflexão sobre a película exibida.

Fora do circuito académico, o Cineclube da Maia privilegia, também, um espaço aberto à discussão. Durante as sessões regulares, que decorrem no Cinema Venepor, no último sábado de cada mês, um artista convidado estrutura uma atuação, de qualquer género artístico, alicerçada no filme. Durante o intervalo do filme acontece um momento de tertúlia, no qual a discussão segue o seu próprio rumo, estruturada pelas diferentes participações.

Cineclube da Maia desenvolve, ainda, outro tipo de sessões: os Ciclos Pequenos, que consistem num conjunto de três filmes tematicamente relacionados, exibidos no Pequeno Auditório do Fórum da Maia e apresentados por uma personalidade relacionada com o tema em questão; o Cinema na Relva, um evento informal ao ar livre, que decorre durante o mês de julho; Cinema na Terra (cinema itinerante); Cinema nas Escolas.

Este espaço dedicado ao cinema começou em Outubro de 2009, impulsionado pela vontade de “despertar um sentimento de comunidade, juntar pessoas que possam partilhar algo em comum, como a rotina difícil numa cidade com população tão recente como a Maia”, explicou a direção do Cineclube da Maia.

Com uma ambição mais curta surge, em 2010, a associação Milímetro, que tem o Cinema Passos Manuel, sala histórica da Invicta, como local de exibição de filmes de vários géneros, sejam clássicos, ficção, documentário, a preto e branco, etc. Os filmes são agrupados em ciclos temáticos, tal como acontece no cine FPCEUP.

Em qualquer uma destas iniciativas dedicadas ao cinema a escolha do filme escolhido é sempre eclética e limitada pela escassez de formatos como o de 35mm e pelos constrangimentos financeiros.

Tal como acontece nos festivais de cinema, o público dos cineclubes também tem aumentado. O Cineclube da Maia tem já uma audiência consolidada, nas sessões no Venepor e uma afluência e uma ambição ainda maiores para as outras atividades mais ligadas à comunidade sem grandes conhecimentos cinéfilos. Contudo, Daniel Marques Pinto, presidente da Milímetro, acredita que certos géneros como o documental e o experimental nunca serão totalmente acessíveis a uma grande parte do público. “O cinema experimental, uma vez que tenta (bem ou mal) explorar os limites da linguagem cinematográfica, terá sempre poucos espectadores.”, explicou. Além disso, para uma grande parte audiência ver um documentário continua a ser entendido como “pagar para assistir a uma aula”, exemplificou.

Jaime Neves explica que a atual geração não se encontra ligada ao cinema independente, porque o desconhece. “Se não se mostra às pessoas, elas não sabem se gostam ou não”, explicou.

Para além dos cineclubes começam a surgir outros pontos para onde conflui o cinema de qualidade, como acontece com o Espaço Anémona. Bar, galeria de arte, local de tertúlias, debates e música, e agora também sala de cinema, desde janeiro. A arte fermenta e fomenta-se neste espaço da Travessa de Cedofeita. “Do realismo poético francês ao expressionismo alemão, passando pelas novas vagas, pelo noir, pelos filmes independentes americanos e pelos documentários”, tudo passa pelo Espaço Anémona, explicou Cláudia Coimbra, programadora do ciclo de cinema. Tal como acontece nos cineclubes, os filmes, por vezes, são agrupados em ciclos dedicados a determinado tema ou personalidade. Em maio, por exemplo, decorreu um ciclo dedicado a revoluções.

Cláudia Coimbra explica, ainda, que o cinema deve ser um exercício social, através da partilha de um filme com alguém e da discussão que emerge desse visionamento. “Há que respeitar a arte de fazer cinema e abolir a tendência geral para ver filmes sem sair de casa”, concluiu.

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Espaço Anémona

20 ANOS DE CURTAS

Há 20 anos surgia aquele que viria a ser o maior festival de curtas-metragens, em Portugal. Contudo, o Curtas de Vila do Conde não se reduz a um acumulado de filmes de pequena duração, pois é, acima de tudo, um “festival internacional de cinema”, afirmou Mário Micaelo, diretor do evento. A programação é diversificada, pois “não nos restringimos a um género ou a uma fórmula e tentamos sempre trazer a produção mais recente e de cinema de autor”, explicou.

Nesta edição serão transmitidas duas longas-metragens, elaboradas por autores de curtas, e documentários, também de longa duração. Entre mais de duas mil participações apenas cerca de meia centena serão escolhidas para serem exibidas na grande tela do Teatro Municipal Helvécio Marins, Sergei Loznitsa e Yann Gonzalez terão estreia mundial na edição de 2012 deste certame.

Ainda neste ambiente festivo vai decorrer uma homenagem ao realizador Stanley Kurbick, através da exposição “2012: Odisseia no Espaço”, e da exibição de algumas curtas-metragens e de alguns dos seus filmes mais conhecidos como, por exemplo, The Shining e A Laranja Mecânica.

O Curtas de Vila do Conde cresce desde há duas décadas e tende a continuar a aumentar o seu público, que se torna cada vez mais diversificado. O crescente interesse pelo cinema por parte da audiência e o facto de uma iniciativa deste género potenciar a economia local, trazendo visitantes à cidade, são factores que levam a crer que o Curtas de Vila do Conde tem uma longa vida pela sua frente. Os fãs do festival, que o acompanham desde a primeira edição, agradecem.

O Porto possui uma série de iniciativas ligadas ao cinema, contudo a capital é sempre apontada como exemplo do nível que o cinema na Invicta poderia atingir. Enquanto em Lisboa existem várias salas de cinema independente, o Porto luta por manter os poucos espaços que ainda se encontram abertos. “Seria bom se houvesse forma de fazer chegar ao Porto, com mais frequência, alguns filmes clássicos que já passaram em Lisboa dezenas de vezes e que, por cá, raramente foram vistos”, afirmou Daniel Marques Pinto.

Mais do que a tomada de consciência de que o cinema é capaz de dinamizar a sociedade, é necessário que o próprio meio dinamize o estado atual do cinema, “abalando os alicerces de políticas incompreensíveis que em nada têm ajudado a impulsionar o amor à Sétima Arte num contexto de harmonia com os espaços urbanos”, apelou Cláudia Coimbra.

Desde que a primeira bobine começou a rodar que o cinema tem fascinado o ser humano. “Tem a capacidade de nos fazer rir, chorar, refletir”, referiu Ângela Santos. Além disso, funciona como uma espécie de espelho do mundo, pois o cinema “é um repositório do que mais autêntico fazemos com a nossa vida”, afirmou Cláudia Coimbra.

Para Mário Micaelo o cinema já não é algo para “mero consumo de um pequeno nicho intelectual de apreciadores de uma dada coisa esquisita, pois faz parte da nossa vida, das nossas vivências e das nossas fruições”. Pelo contrário, Daniel Marques Pinto apresenta o cinema como algo mais individualista e poético: “O cinema é uma boa desculpa para uma pessoa se sentar durante cerca de uma hora e meia, muito quietinha numa sala escura, sem que ninguém a incomode, enquanto finge que vive outra vida, conduzindo uma carrinha em Los Angeles, subindo escadas duma pensão parisiense ou mostrando o retrato da noiva aos companheiros de trincheira, durante a Grande Guerra.”

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Festival de cinema Black & White 2012

Redatora: Melanie Antunes