Há exatamente 43 anos, nesse quente junho de 1969, um colorido bando de proscritos fazia história. Na ressaca dos movimentos pelas liberdades civis e de todas as emancipações: do black power ao feminismo radical, passando pela revolução sexual e o clamor pela auto-determinação da juventude, lésbicas e gays e muitos transexuais eram ainda confinados a espaços onde a liberdade possível era vivida entre quatro paredes e interrompida por rusgas recorrentes por parte de forças policiais.

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A 22 de junho, morre Judy Garland, figura querida à comunidade gay, que se revia nas batalhas pessoais e no imaginário ‘camp’ da malograda estrela de “O Feiticeiro de Oz”. Com o recrudescimento de investidas anti-gay, na noite de 28 de junho, no concorrido bar “Stonewall”, em New York, o ambiente não podia ser mais explosivo. E é com uma explosão de fúria que as pessoas presentes respondem a mais uma investida das forças policiais. Descrições da época relatam uma intensa batalha campal, com barricadas e figuras de vestidos e lantejoulas a investir com as armas de arremesso mais à mão: sapatos de salto alto. Imagino também perucas fora do sítio e faces desfiguradas pela maquilhagem manchada de lágrimas e gritos de revolta continham em si toda uma história de opressão e violência. Chegara a hora de dizer basta. Todos os anos, em torno do dia 28 de junho, se celebra Stonewall um pouco por todo o mundo democrático, com paradas cheias de cor e diversidade. São marchas do orgulho, de quem, como todos os oprimidos da história, deixou de ter vergonha de ser quem era e que, sobretudo, quis tomar nas suas mãos o seu destino, com a sua voz e as suas próprias palavras, cores, roupas e atitudes. E as palavras passaram a ter outro significado: de insultos fizeram-se identidades e bandeiras. Com lantejoulas e salto alto ou simplesmente como se apresenta quem faz questão de ser verdadeiro e, sobretudo, contribuir para um mundo mais arco-íris. Não se iluda quem pensa que os direitos estão adquiridos: há um caminho feito, mas também países onde se pode ser morto e torturado por amar, milhares de jovens vítimas de bullying e sem esperança no futuro, há famílias a sofrer, pessoas a perder o seu emprego, vozes são censuradas, violência extrema e agressões invisíveis acontecem todos os dias a pessoas por causa da sua orientação sexual ou identidade de género. Este mês, espero encontrar-me convosco, para juntos ouvirmos o eco destas histórias e fazermos da tristeza uma revolta, e da revolta uma vontade de mudança, e da mudança uma alegria.

Redator: Telmo Fernandes