Meus amigos idiotas, que insistem em ler estas coisas que não me canso de escrever, venho este mês falar-vos de algo pouco artístico, à priori: Dinheiro!

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Contudo, devo admitir, porque não gosto de deixar nada de errado por emendar, que na edição anterior, ao escrever sobre o Cinema Cego, cometi um erro grosseiro de tamanha indigência que ainda hoje não me consigo perdoar. “Grande Idiota!”, pensei eu numa atitude relativamente autocrítica. Ao dar o exemplo do panóptico referi Umberto Eco como o autor de uma teorização extensa sobre esta visão social, quando, na verdade, deveria ter dito Michel Foucault. Um erro imperdoável, negligente que me faz sentir uma espécie de confuso intelectual, já que a confusão se deu por um ter escrito o pêndulo do outro, criando aqui uma ligação inerente, mas quanto a este caso completamente despropositada. No entanto, não perderei mais tempo com isso, porque quando tentamos remediar com minuciosidade, o resultado pode ser catastrófico.

Este mês, como já disse, falarei de dinheiro, mas como a crise tem afectado meio mundo (a outra metade dele vive à grande e à francesa, ou à angolana como agora parece moda), não me estenderei sobre o assunto e começarei com uma frase de ordem que vi escrita num muro da baixa lisboeta: “O Capitalismo não se reforma, destrói-se”. Grande chavão este, cheio de verdade e de vingança. Há que destruir todos os modos de vida que nos conseguem eliminar mesmo enquanto dormimos e sonhamos com uma vida mais calma e sem preocupações. Nunca podemos reformar algo que nasceu torto e que tem no seu comando os maiores artistas do furto. Artistas sim e muito bons artesãos no que toca a esta suprema e antiga Arte de Roubar. Já no século 17, o Padre Manuel da Costa, numa obra barroca dedicada ao Príncipe Dom Teodósio e ao Rei Dom João IV intitulada “Arte de Furtar”, faz uma extensa catalogação das garras que infestam este mundo a que ele, concretamente, chama “Covil de Ladrões”. Hoje em dia, leigos de tudo o que nos impingem pela publicidade e consumismo, começamos a ter noção que estes roubos favorecem alguém que anda impune a todas as leis e costumes da boa conduta e da íntegra decência: A Banca!

O processo de roubo resume-se ao seguinte esquema: Os Bancos Centrais fazem dinheiro a custo zero. De seguida emprestam aos Bancos e aos Estados a juros indecentes. Estes, tendo de pagar, no mínimo, o triplo do que pediram, criam créditos (dinheiro inexistente) e juros ainda mais aberrantes, aliciando como Lobos Maus, os pobres contribuintes ao consumo exacerbado para, assim, poderem os segundos pagar a dívida em relação aos primeiros que, como o Zeca Afonso cantava, “comem tudo e não deixam nada”. Andamos aqui a brincar à bolsa e à especulação que servem apenas para matar a capacidade de pagamento de uns e de outros porque, nas suas mentes criativas, a economia só tem pernas para andar se houver dívida e pobreza numa perspectiva selvagem de predador. Este sistema que governa o mundo ocidental, que Cesariny já havia catalogado de “monstruosidade” num seu belo poema, tem de terminar, caso contrário, e com a evolução do monstro capitalista, o destino será aquilo que Nietzsche chamou de “Guerra de todos contra todos”, estabelecendo aqui uma analogia com a imagem bíblica do Apocalipse. Como terminamos isto? Reconduzindo a economia à verdade, deixando de brincar à arte de furtar, deixando de usar dinheiro que não temos, obrigando a Banca a ser séria e a trabalhar apenas com dinheiro que existe, obrigando estes gordos burgueses, que mais não são do que Porcos de Bordalo Pinheiro, a jogar em pratos limpos e a reduzir os juros a taxas mínimas. Não chega sermos humanos, temos de ser, acima de tudo, humanizantes. Temos de respeitar o semelhante e o vindouro e destruir a arte que atenta contra a evolução da espécie: O Capitalismo!

Se existe arte no roubo, também existirá arte na devolução dos direitos naturais. Juntemos forças, decência, telas para pintar o homem como obra de respeito. Abaixo este monopólio de charlatães e assassinos que nos governam “as massas”, nos controlam as ideias e nos formatam o futuro em caixões sem “almofadas”. Se o texto mexeu contigo, então soube muito bem provoc’arte!

Redator: Rui de Noronha Ozorio