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Idiot: Quando e como surgiram os Madame Godard?
Madame Godard: Costumamos dizer que a história inicial dos Madame Godard tem todos os ingredientes de um bom filme de domingo à tarde. Resumindo, e sem grande detalhe, podemos dizer que os MG surgiram em 1998. O primeiro concerto foi no conhecido concurso de novos valores, Termómetro Unplugged, onde já participaram os Ornatos Violeta, Terrakota, Silence 4, etc. Ficamos em segundo lugar, ganhamos o prémio Rádio Comercial e a partir daí tocamos sem paragens, com concertos um pouco por todo lado, sensivelmente até 2001.
Idiot: Quais são as vossas fontes de inspiração?
Madame Godard: É uma questão que sempre nos foi difícil resposta. Somos cinco elementos que, para além de termos backgrounds muito distintos relativamente à formação musical, temos gostos muito diferentes. De certa forma, foi esta mescla que criou aquilo que podemos identificar como o som dos MG. Existem, no entanto, muitos artistas com o qual nos identificamos em pleno, e fazem parte da nossa coleção de discos, tais como Beatles, Beach boys, The Clash, Serge Gainsbourg, David Byrne e também coisas mais recentes como Grizzly Bear, Fanfarlo ou Generationals, só para citar alguns.

Idiot: Sendo uma banda veterana no panorama musical, agora que regressaram, perguntarão os fãs: o que é que os Madame Godard andaram a fazer?
Madame Godard: Depois de 2001, muita coisa se passou com a vida de cada um dos elementos da banda e isso de certa forma reflectiu-se no nosso trabalho. Houve mudanças na formação, houve quem fosse para fora de Portugal, houve uma serie de direções e motivações de ordem pessoal que decidimos tomar e que fizeram com que os MG ficassem de certa forma, em stand-by. Em 2002 demos o nosso último concerto para só voltar à composição em 2007.
Idiot: Qual foi o momento que determinou o vosso regresso e a criação do novo album?
Madame Godard: Um pouco da mesma forma como tínhamos parado, voltamos todos a Viana do Castelo e de uma forma natural, voltamos ao nosso estúdio para compor e tocar coisas novas. Em 2007, começamos a trabalhar com um novo management, em 2008 editamos um tema nos “Novos Talentos FNAC”, em 2009 fomos convidados pelo Henrique Amaro para fazermos parte da primeira edição da Optimus Discos, com o EP “Aurora”, em 2010 lançamos o “Galapagos”. Em 2011, depois de 2 anos na estrada, com mais de 100 concertos, incluindo uma passagem pelo Paredes de Coura e Optimus Alive, decidimos voltar para estúdio e começar a preparar material novo. O primeiro single já está cá fora e o novo disco está em fase de gravação e tem edição prevista para Setembro.

Idiot: Como tem sido a resposta do público ao vosso novo single?
Madame Godard: O novo single “the Last Goodbye” está ainda nas primeiras semanas de vida, mas o feedback tem sido muito bom. Convidamos a Emmy Curl para participar nas vozes e também o Pedro Oliveira (peixe:avião, Dear Telephone, etc.) para participar nas gravações. Foi tudo muito natural e o resultado final foi óptimo e tem agradado a toda a gente.

Idiot: O que acham que mudou na música em Portugal durante estes anos?
Madame Godard: Na música em Portugal, na música portuguesa e também na música global, muito mudou, mas nem tudo se alterou.
Por um lado, o mundo é bem mais plano nos dias que correm do que alguma vez foi. O mundo está mais democratizado, no sentido em que existem muitas mais formas do clássico DIY. Qualquer um pode montar o seu estúdio, gravar, expor a sua música nos meios digitais, fazer a sua própria promoção, chegar a audiências mais vastas, etc. Não queremos com isto dizer que é mais fácil vingar. Não sejamos naifs ao ponto de pensar que os grandes hypes musicais surgem de um simples post no youtube ou facebook. Há muito mais por trás desses projectos.
De qualquer das formas, nós próprios conseguimos coisas praticamente impossíveis há uns anos. Fomos contactados para uma possível edição por uma grande editora internacional, cedemos os direitos de um tema para uma grande campanha publicitária na Rússia, aparecemos em vários meios de comunicação internacional, tais como a MTV Iggy, participamos em compilações norte-americanas ao lado de nomes como Caribou, Cults e Broken Social Scene, entre outras coisas… Agora o que falta é potenciar essa facilidade de chegar mais longe, com os devidos meios e orçamento. Se isso acontecesse, como acontece na Suécia ou França, iríamos ouvir falar muito mais das bandas portuguesas lá fora.
Por outro lado, a indústria discográfica deixou de existir tal como a conhecíamos. Se antes ainda havia algum espaço para apostas em artistas novos, agora as grandes editoras só apostam em artistas consagrados. Existem muitas novas editoras independentes, que apostam em projectos frescos e que têm uma visão mais actual do cenário musical, mas, por vezes, a sua dimensão, os orçamentos limitados e os lobbies da industria instituída tornam muito complicado o seu sucesso, e por consequência o sucesso das suas bandas. O mesmo se aplica às agencias que representam os artistas.
No que diz respeito à música propriamente dita, ela está de óptima saúde e recomenda-se. Há excelentes bandas e excelentes músicos que, com os devidos meios, dariam (e dão) cartas não só no panorama nacional como em qualquer parte do mundo. Respira-se muito boa música em Portugal neste momento e isso só tem que nos fazer acreditar que o futuro nos reserva um sorriso..

Idiot: Apesar das vossas pausas, os fãs podem contar com uma longa vida dos Madame Godard?
Madame Godard: Sem dúvida.. O facto de estarmos em actividade, a compor material novo e a preparar um novo disco fala por si. Tudo o que fizemos foi sempre fruto da nossa paixão e vontade. Nunca tivemos contratos, nem pressões externas para fazer o que quer que fosse. Apenas inspiração e motivação interior para nos fazermos ouvir. Vamos estar por aí certamente.

Texto: Catarina Lima