A IdiotMag aproveitou os descontos fajutos de Verão e decidiu embalar a trouxa e viajar até… Budapeste!

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A capital da Hungria, palco de histórias sangrentas e de ditaduras violentas (nazis e comunistas) ao longo do último século, tornou-se agora uma cidade vibrante, repleta de surpresas e pronta para mergulhar no futuro, sem contudo perder a sua identidade (risco real que correm todos os destinos turísticos de grande afluência). Decidimos tentar perceber como é ser LGBT nestas belas margens do Danúbio. Com a ajuda de amigos, colaboradores de uma das principais associações húngaras – a Hatter Suport Society – tivemos o privilégio de atravessar aquela difícil fronteira que separa o simples turista do gajo que realmente experimenta viver (ok, por uma semanita) numa outra realidade. Com os nossos anfitriões ficamos a saber que ser activista neste contexto pode trazer alguns dissabores: a marcha pride de 2008 foi atacada por grupos extremistas e desde então o evento realiza-se sob algum sigilo e com protecção policial reforçada.

Como muitas outras cidades europeias, Budapeste dispõe de um pequeno roteiro de bares, discotecas e clubes, maioritariamente concentradas na parte de Peste. São muito concorridos os eventos LGBT organizados com regularidade em espaços ‘straight’, o que contribui para uma mistura de públicos que é de saudar e de incentivar noutros locais. Para além destes espaços, existem os lendários banhos termais e saunas temáticas, como a Magnum, para um público exclusivamente masculino. As lésbicas, também aqui, estão muito ausentes do espaço público.

Aproveitámos para visitar alguns bares, com um grupo verdadeiramente internacional (composto, entre outros, por húngaros, checos, iranianos e espanhóis), seguindo depois para a celebrada noite do clube Alterego. As impressões foram muito positivas: um público heterogéneo, com casais de todas as cores e um equilíbrio de género raro neste contexto (de resto, música muito simpática, infelizmente com a esmagadora e normativa hegemonia anglo-saxónica).

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O que é ser LGBT na Hungria?, perguntamos. Parece prevalecer o registo, demasiado familiar, do não-levantes-ondas-que-nada-te-vai-acontecer. Ou seja, desde que não se declare, pareça, manifeste ou se exprima enquanto tal, uma pessoa LGB ou T não terá problemas. Contudo, o cenário muda se se tentar ser mais explícito, ou, o que vai dar ao mesmo, se se romper de alguma forma com os códigos restritos do género e da heteronormatividade. A lei sanciona a discriminação com base na orientação sexual e identidade de género (no trabalho e no acesso a bens e serviços), identifica crimes de ódio com base nestes critérios e é possível estabelecer uma união civil entre duas pessoas do mesmo sexo (algo semelhante ao nosso regime de uniões de facto). Mas o relativo secretismo que rodeia ainda muitas das actividades (activistas, lúdicas e outros serviços de apoio), levanta sérias dúvidas relativamente ao grau de aceitação e integração. Em julho foi organizado o evento EuroGames, cuja localização foi mantida em segredo até à última da hora para prevenir ataques. Algumas pessoas relatam mesmo um recrudescimento recente de atitudes homofóbicas e transfóbicas, que tem tido como consequência a inibição da livre expressão das identidades LGBT.

Conhecer outras realidades é uma das melhores formas de compreender a nossa própria realidade. Permite-nos alargar as nossas referências de pensamento, flexibilizar as nossas reflexões e, com isso, esperemos, identificar melhor as alavancas de intervenção e… pôr mãos à obra para a construção da diversidade (da qual, by the way, tod@s fazemos parte).

Texto e imagens: Telmo Fernandes