“IT’S THE END OF THE WORLD”

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Dezembro é um mês com uma carga significativa muito grande, não só devido às comemorações natalícias, mas também por ser o final do ano e, portanto, a altura certa para fazer um balanço daquilo que se viveu ao longo dos doze meses. É um mês de saudosismo e de esperança.

No dia 31 todos se enchem de coragem e para dar um passo em frente para o ano novo, do qual esperam mais conquistas, maior felicidade e menos problemas. Se têm estado a par das notícias e conseguir sair da orbita do vosso real umbigo nos últimos tempos, de certo saberão que de 2013 nada de bom se espera.

Quanto a 2012 o balanço só poderá ser mau, pois entre a crise económica, o furacão Sandy que atrasa o lançamento dos novos episódios de “Revenge” e a expulsão do Wilson da Casa dos Segredos por ter dado uma cabeçada no Hélio, não existe qualquer aspeto positivo a referir.

Para os Idiotas desiludidos com 2012 e que receiam ter de fazer as malas em 2013 e partir para outro país, temos uma novidade: não precisam de deixem de se preocupar pois o mundo acaba este mês!

Não é a primeira vez que é anunciada uma data para o fim do mundo. A Humanidade parece compelida a condenar a Terra de cada vez que esta é assolada por fenómenos, como a passagem de um cometa nas proximidades do planeta, por exemplo. Para este ano, a data prevista é 21 de dezembro, dia em que supostamente os planetas estariam todos alinhados na mesma direção. Segundo a NASA, nas próximas décadas não vai ocorrer nenhum alinhamento planetário e mesmo que tal acontecesse esse evento não teria qualquer consequência para o nosso planeta. De facto, todos os anos, em dezembro, a Terra e o Sol alinham-se com o centro da galáxia, mas tal nunca teve nenhum efeito.

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Cena do filme “Armageddon”

Outro mito é o da existência de uma mudança polar no planeta, no final do ano. A Terra é rodeada por um campo magnético com dois polos, o sul e o norte (tal como um íman tem os polos, o positivo e o negativo), que mudam entre si a cada 400 mil anos. Essa mudança está prevista apenas para daqui a mil ou três mil anos. Além disso, não existem provas de que tal alteração possa ter qualquer consequência drástica, caso contrário, já teriam sido encontrados indícios de extinções massivas ao longo da vida terrestre.

Outro fenómeno astronómico que tem estado na origem de teorias apocalípticas é a tempestade solar. A cada 11 anos o sol tem picos de tensão, que se traduzem em explosões. O próximo pico deverá acontecer entre os anos 2012 e 2014, contudo, os únicos registos de danos causados por tempestades solares são de falhas nas comunicações de satélites, algo para o qual a tecnologia mais recente já se encontra preparada.

A astronomia sempre foi uma área susceptível à curiosidade dos leigos, que tendem a dramatizar os factos. Esta ciência foi amplamente estudada pelo povo Maia, que também se encontra na origem de uma das teorias do fim do mundo. O facto do calendário Maia terminar em 2012 levou os entusiastas destas teorias a anunciar o fim do mundo para a mesma data. No entanto, os estudiosos desse povo antigo explicaram que o calendário tem um final (tal como todos os calendários atuais terminam sempre a 31 de dezembro), mas logo a seguir refere o início e um novo ciclo.

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Filme “A Noite dos Mortos
A religião e a comunicação de massas são dois fatores que contribuem para o surgimento e fomento destas teorias. Nas últimas décadas Hollywood lançou vários êxitos de bilheteira que retratam cenários apocalípticos, muitas vezes baseados em supostas teorias científicas: “O Dia Depois de Amanhã”, “Armageddon”, “2012”, “Impacto Profundo”, etc. Além deste género de ficção científica a indústria cinematográfica também tem incentivado o surgimento de teorias apocalípticas relacionadas com zombies. Aliás, 2012 foi, sem dúvida, o ano que o culto das histórias de zombies mais cresceu, algo que se deve à celebre série “The Walking Dead”.

O xerife Rick Grimes acorda de um coma e depara-se com um hospital vandalizado. Ao sair das instalações e ao deambular pelas ruas depara-se com um cenário pós-apocalíptico, no qual os zombies dominam o mundo. Rick parte em busca da sua mulher e do seu filho, lutando pela sua sobrevivência e pela extinção da praga dos zombies. A terceira temporada estreou este ano e o número de fãs da série realizada por Frank Darabont ainda não parou de crescer. No entanto, a personagem fictícia do zombie não é novidade para a cultura de massas. “White Zombie” foi o primeiro filme de terror a referir o conceito de zombie, em 1932. A película, realizada e produzida pelos irmãos Victor e Edward Halperin, contou com a interpretação de Bela Lugosi, o ator húngaro que interpretou o papel de Drácula, no filme homónimo, em 1931. “I Walked With a Zombie” (1943) é outro clássico, no qual o zombie é criado por práticas de voo doo afro-caribeanas, o que não acontece por acaso, pois nas culturas sul-africanas existem referências aos zombies como espíritos que podem voltar à vida. Já em 2011, esta ideia volta a ser explorada nos livros de banda desenhada “Drums”, escritos por El Torres, desenhados por Abe Hernando e editados pela Image Comics.

A versão da criatura zombie, tal como a conhecemos nos dias de hoje, surgiu através George A. Romero, criador do filme épico “A Noite dos Mortos-Vivos”, (1968), que marcou o início do terror moderno. Neste filme, inspirado na obra de Richard Matheson´s, “I Am Legend” (1954) ,e escrito também por John A. Russo (produtor de “The Children of the Living Dead” e “Escape of the Living Dead”), não é referida a palavra zombie. Mais tarde, os fãs viriam a associar essa denominação àquelas criaturas.

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Série “The Walking Dead”
George A. Romero tem como grande inspiração o filme “The Tales of Hoffmann”, um uma adaptação da ópera “Les contes d’Hoffmann” (Jacques Offenbach), realizada e produzida por Michael Powell. A fantasia, o medo e o bizarro foram sensações que levaram Romero a querer fazer filmes de terror. Apesar de nos seus filmes abordar outras criaturas para além dos mortos-vivos, foi com estas que se consagrou no género terror. Em 1978 voltou ao mundo dos zombies com “O Renascer dos Mortos”, considerado um dos melhores filmes de culto pela revista norte-americana Entertainment Weekly, em 2003. Em 1985 realizou “O Dia dos Mortos”. Em 1990 produziu o remake de “A Noite dos Mortos-Vivos”, realizado por Tom Savini (“The Theatre Bizarre”). Para além da sua vasta filmografia, Romero inspirou outros realizadores e produtores como, por exemplo, Dan O’Bannon (argumentista de “Alien”, “Alien vs. Predator” e “Desafio Total”), que realizou “O Regresso dos Mortos Vivos” (1985), filme que introduziu o conceito de que os zombies comem cérebros e de que não se interessam apenas por carne humana.

Normalmente os zombies são retratados como o produto de uma doença que os levou a morrer e a recuperar os sentidos, mesmo estando mortos. Esse vírus alastra-se pelo mundo e cria um cenário apocalíptico (“20 Dias Depois”, “Resident Evil”).

Existem outras causas que podem originar um apocalipse zombie, para além das pandemias. No livro de Michael Crichton, “Prey”, e no videojogo da PlayStation 2 “Nano Breaker”, os zombies são criados por nanobots, robots microscópicos, criados através da nano tecnologia, que penetram no cérebro do ser humano, alterando as conexões neurais e programando-as para que o corpo responda aos seus impulsos, mesmo após a morte do ser humano. Para além dos nanobots o cérebro pode ser alterado por um parasita (como acontece no “Resident Evil IV”) como o toxoplasmosa gondii (parasita que se encontra nos gatos), que faz com o ser humano comece a devorar a sua própria carne, sem se aperceber.

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Uma das causas mais prováveis de acontecer na realidade e, por consequência, mais assustadora, são as neurotoxinas.
Existem certos venenos como, por exemplo, os do fugu (peixe-balão japonês) capazes de reduzir as funções corporais de tal forma, que o ser humano parece morto. As vítimas podem voltar à vida através da administração de medicamentos baseados na planta datura stramonium, que pode deixa o ser humano num estado de trance, sem memória, mas com capacidade de desenvolver atividades vitais, como comer e dormir. Este cenário é retratado no filme “A Maldição dos Mortos-Vivos” (“The Serpent and the Rainbow”), realizado por Wes Craven (“Pesadelo em Elm Street”, “Gritos”), que, por sua vez, se baseia na obra homónima de Wade Davis, um cientista etnobotânico que investigou as práticas de voo doo haitianas e o processo de criar zombies através de venenos botânicos. No seu livro reporta o caso de Clairvius Narcisse, um haitiano declarado como morto e enterrado e 1962, que foi encontrado a vaguear pela sua aldeia, 18 anos mais tarde. Ao que parece um mestre de voo doo usou químicos naturais para trazer de volta à vida várias pessoas, que foram colocadas a trabalhar nas plantações de açúcar. Se o estudo de Wade Davis for inteiramente verdade, reconforta-nos saber que no livro os zombies não são descritos como agressivos, nem como canibais.

Mais reais ainda são as histórias dos ataques de canibalismo que ocorrem em maio deste ano, nos Estados-Unidos da América. No dia 26 de maio, a baixa de Miami testemunhou um evento bizarro e arrepiante: um homem nu comeu a cara de outro homem. O atacante, Randy Eugene, foi alvejado pela polícia quando já tinha devorado os olhos, o nariz e as orelhas da vítima, um sem-abrigo.

Dias depois, as autoridades de Nova Jersey foram chamadas para salvar um homem que se encontrava barricado no seu quarto com uma faca, com intenções de se magoar. Assim que a polícia entrou no quarto, Wayne Carter começou a esfaquear o seu abdómen, pescoço e pernas. O homem, enfurecido pela tentativa da polícia de o fazer parar, começou a atirar partes da sua pele e dos seus intestinos aos polícias, que acabaram por se retirar do quarto, para solicitar a intervenção de uma equipa SWAT. Estes agentes conseguiram convencer Wayne Carter a parar e conduziram-no para o hospital.

Na mesma semana, Alexander Kinyua, estudante na Morgan State University, confessou ter morto o seu colega de quarto com uma faca e ter ingerido o seu cérebro e o seu coração, após o desmembrar.

É desconhecida a origem de tais comportamentos, mas uma das causas poderá ser a ingestão de sais de banho, pois são um produto que contém substâncias alucinogénias que podem levar a um estado de euforia, mas também podem causar ataques, taquicardia, paranoia, alucinações, violência e morte. Apesar da advertência nas embalagens de que se trata de uma substância imprópria para consumo, marcas como Kush Blitz, Lovey Dovey, White Lightning e Euphoria já foram consumidas por humanos.

Em 2010, os centros de controlo de intoxicações dos Estados-Unidos registaram 302 pedidos de ajuda por ingestão de sais de banho. No primeiro trimestre de 2011 essas chamadas aumentaram para 784. A tentativa de suicídio é uma das causas para a ingestão desses produtos. Normalmente, os sobreviventes desses casos ficam com perturbações psicológicas a longo prazo.

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filme “Dawn of the Dead”
Durante o mês de maio também se registaram alguns casos de alunos com erupções cutâneas, o que contribuiu para aumentar o alarido em torno de um possível apocalipse zombie. O culto destas criaturas já existe há várias décadas, mas graças à propaganda hollywoodesca, o que parecia ser apenas uma legião de seguidores de filmes e de teorias daí resultantes, tornou-se numa moda. Se no último Halloween, as corriqueiras bruxas e os habituais vampiros deram lugar a máscaras de zombies, esperem pelo próximo Carnaval, onde de certeza não vão faltar humanos disfarçados de mortos-vivos.

Quanto ao fim do mundo, não existe nenhum dado científico que aponte para o dia 21 de dezembro. No entanto, não tardará muito a surgir outra teoria apocalíptica, possivelmente baseada nos zombies. O masoquismo destes pensamentos que condenam o mundo e a humanidade devem-se, provavelmente, à insatisfação perante o mundo e a sociedade atuais e à vontade de recomeçar do zero. A oportunidade de participar na criação de um novo mundo ou de uma nova forma de existência é ao mesmo tempo assustadora e aliciante. No final de contas, já todos nós nos imaginamos na pele de Rick Grimes ou de Alice (personagem principal do Resident Evil interpretada por Mila Jovovich), de shotgun na mão, com um aspeto badasss, a matar multidões de zombies. Quem sabe esse dia não está mais próximo do que julgamos.

Texto: Melanie Antunes