Meus caros Idiotas, outro dia acordei com uma voz gritante dentro da minha cabeça: “O Cinema está cego!”. Alguém bradava aos sete ventos esta fatalidade. O Ser Humano tinha deixado de poder ver. Tudo, de repente, se tinha tornado negro e ninguém conseguia alcançar qualquer tipo de imagem.

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Conseguiremos imaginar um mundo às escuras? Conseguiremos viver sem ver (para além de um fundo sem luz onde nada se passa)? Pois bem… penso que não vivemos nós de outro modo mesmo com o apoio de todas as luzes.
Esta será a diferença semântica entre dois verbos essenciais à vida: Ver e Olhar. A evolução e a revolução industrial iniciou um processo de eliminação do homem por ele próprio, através da facilidade tecnológica e de acesso à informação. Tudo nos é oferecido pela imagem construída e pronta a consumir. Tudo nos é facilitado pela rapidez existencial a que o processo técnico, filho bastardo da construção e irmão siamês do capitalismo, nos atirou. Frederico Nietzsche, com alguma alma profética no seu estudo “A verdade e a mentira no contexto extra-moral”, já tinha previsto esta “Guerra de todos contra todos” que teria por fim a eliminação da pessoa, da vida humana, pela força de não haver acordo entre os homens. Esta facilidade de podermos ver tudo, também impulsionada, de certa forma pelo conceito do Big Brother do Orwell, este descendente directo do panóptico descrito tão bem por Umberto Eco, atirou-nos sem defesas para um mundo onde tudo se pode ver e onde tudo pode ser visto.

Mas será que esta facilidade nos deixa ver, na realidade? E se eu vos dissesse que ninguém vê absolutamente nada? E se eu vos dissesse, à boa maneira do Almada Negreiros, que nós todos não passamos de “um coiro de indigentes e charlatães” de nós mesmos? Que nos estamos a enganar a pensar que vemos, mas na realidade só saberemos “Olhar”? Se vos disser isto e pensarmos na conotação poderosa da visão, será que Olhar e Ver serão a mesma coisa? Eu direi que não! Tenho visto algum cinema, principalmente surrealista, onde realizadores como Dali e Buñuel fazem o homem ver para além da realidade. O cinéfilo aqui tem capacidade de sonhar, de se transportar para além da imagem e poder Ver cinema. Vi, com muito interesse e já noutra época cinematográfica, a rebeldia do nosso João César Monteiro, no seu filme “Branca de Neve”, que nos presenteia uma tela em tons de cinzento, na qual sabemos existir actores a contracenarem atrás de um casaco colocado em frente da objectiva fílmica. O que podemos observar são as cores das vozes dos actores que, neste caso, parecem uma leitura encenada num teatro bem clássico em Portugal. Foi na junção destes dois tipos de cinema subjectivo que o poder da imagem e das narrativas me assaltou a alma e me inquietou enquanto homem visual. De facto ver tem muito que se lhe diga. Proponho-vos um exercício: Já pensaram que um estrangeiro observa muito mais a nossa cidade sem nunca ter cá vindo, reparando em coisas que nós pensamos nunca ter visto antes. Isto acontece porque nunca vemos o que facilmente pode ser olhado. Passamos pelas coisas sem notar nelas à força de passarmos sempre por elas, e nunca conseguimos alcançar a sua verdadeira beleza, porque fazem parte das rotinas da retina.

Dei por mim a imaginar uma tela negra e fechei os olhos com força até me habituar a ver aquela imagem negra vazia… mas logo a minha imaginação começou a palpitar e a necessidade de ver produziu imagens no meu cérebro… senti que poderia viajar. Depois, parti para outra experiência: Cerrei novamente os olhos, mas desta vez fiz-me acompanhar do som do filme “Impressões da Alta Mongólia” do Dali (em homenagem ao grande Raymond Roussel) e apercebi-me que aquela narrativa me fazia sonhar. Era uma mistura bem pintada de sensações poéticas surreais que me levavam a uma viagem muito minha e bela, esteticamente elevada. Naquele momento, todas as imagens eram tão reais ou mais do que todas as que olho de olhos bem abertos. Foi nesse exacto momento que cheguei à conclusão em que o homem com os seus olhos é o animal mais cego.

E se ele fosse obrigado, pelo hábito, a ver em vez de olhar? Melhor local para o fazer seria o cinema: Uma sala, uma tela escura e uma narrativa que lhe alimentasse os sonhos, qualquer coisa que fundisse, nas vozes dos actores, magia, sonho e poesia, e com isso conseguisse despertar a visão adormecida pelo dia-a-dia.
Poderão acusar-me os maiores defensores da estética e do belo que o que defendo é a morte do cinema. Pois eu, claro idiota, penso que será pelo Não-cinema que se fará cinema, e que isto será o motor de arranque para se poder ver melhor. Assim poderemos transmigrar tudo o que olhamos até então para o mundo interior da estética, onde, à medida do André Breton, a imaginação não perdoa. Proponho-vos assim a introdução ao conceito que escrevi mal acordei, ainda com a voz do homem do sonho a gritar de agonia pela cegueira da sétima arte:

O cinema está cego!
Contorcia-se o sindicalista cinéfilo
Cada vez que gritava bem alto os
lascivos panfletos.
A tela tinha-se colorido de negro.
Os olhos nada viam..
Ai os Olhos que deviam ver, olhos
que viram e já não podem ver mais.
Cegos estão aqueles que deixam
de ver cinema
à força arrebatadora de uma sala
escura, rugindo em silêncio.
Começamos por ouvir o sussurrar insuportável
dos sistemas de som quando acordados pelo
horário burguês da matiné.
E começa a dar o pé ao trabalho
Pra este povo não se por com cara
de caralho
À espera de uma imagem que
não vai aparecer.
Silêncio aparente.
Começa a banda sonora
Com tanto sonho de música por fora
a transbordar para dentro como
fonte de sonhos.
Medonhos esses olhos que ainda
não vêem nada
Que não inferem nem ingerem
As narrativas mágicas que se avizinham!
Os actores cometem amores

Às escondidas, mas já há quem os
consiga encontrar
E ponha o cowboy a montar
Uma bela concha de pérolas
perfeitas perdidas.
Felizes de quem prever isto com
o desenho poético
Da fotografia apaixonada.
Há quem tenha mais olhos que os
verdes palpitantes
Como o do Cu
que vê por necessidade
Mais todos os da Alma delirantes
– criam feitiços de crianças imaginárias
E Tudo é maravilhoso!
Oh tela de cinema já com vida
És cinema… cegaste para despertar
a imagem interior,
Aquela das pinturas internas que
nos atiram no luar
às loucuras
Com ternuras de magia e surpresa
Uma imaginação que não perdoa de tamanha
beleza
As cores cá dentro são mais claras
Mais nítidas
O cinema cá dentro…
Vê-se melhor!
Texto: Rui de Noronha Ozorio