ALMA TEM 28 ANOS, DRAW MENOS QUATRO. SÃO AMBOS NATURAIS DO PORTO, FAZEM PARTE DO COLECTIVO RUA E SÃO OS ILUSTRADORES DA NOSSA EDIÇÃO DE ABRIL. O RUA, CRIADO EM 2006, É CONSTITUÍDO POR MAIS DOIS MEMBROS, DON´T LOVE E MASH E NASCEU DO “AMADURECIMENTO E DA CONSOLIDAÇÃO” DE OUTROS PROJECTOS. O OBJECTO CENTRAL É A STREET ART E O GRAFFITI MAS ACTUALMENTE O COLECTIVO EXPLORA A ILUSTRAÇÃO, O DESIGN GRÁFICO E A FOTOGRAFIA.

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Fedor, Draw e Alma, Viana Criativa 2013

Idiot-Quando surgiu o interesse por artes plásticas, graffiti e street art?
ALMA- “O meu interesse surgiu após ver as primeiras paredes pintadas no Porto nos finais dos anos 90, que despoletou curiosidade em pegar numa lata e escrever o meu ‘tag’ pela 1ª vez, em finais dos anos 90, início de 2000. Apos várias experiências em 2005, comecei a assinar Alma e a levar as pinturas mais a sério. A Ilustração é fruto dessas experiências e da necessidade de levar o meu trabalho para outros suportes e poder expor o mesmo. Em 2009 tive o primeiro convite para um evento e em 2010 surgiu a primeira participação numa exposição. Desde aí a ilustração e a street art/graffiti têm sido abordados paralelamente sendo uma complemento da outra”.

DRAW- “O meu interesse pelas artes surgiu ainda em miúdo, sempre me fascinou ver desenhos e pinturas que encontrava em casa de amigos ou familiares e que, aliado ao gosto que vinha a desenvolver pelo desenho naturalmente evoluiu para algo que passou a fazer parte da minha vida. Não tardei a ter o primeiro contacto com o graffiti e a street art que se aliaram mais tarde à arquitectura fomentando ainda mais a minha vontade em fazer desta área parte activa do meu trabalho quotidiano. Primeiro optei pelo agrupamento de artes no ensino secundário e mais tarde, para minha formação profissional, segui arquitectura, um complemento ao trabalho que desenvolvo na área da fotografia, street art e artes plásticas”.

Idiot-O que te cativa mais na street art?
Draw- “O seu carácter público, não institucional e não comercial que a distingue de outras manifestações artísticas. A street art tem expressão no espaço público de forma gratuita, acessível ao mais diverso tipo de pessoas com as mais variadas idades, personalidades e classes sociais, sem elitismos nem preconceitos. No entanto, concordo que haja ainda uma linha muito ténue no que respeita à classificação da street art como expressão artística ou vandalismo, mas que no fundo, cabe-nos a nós artistas da street art, trabalhar cada vez mais de forma a ir moldando aos poucos a visão da sociedade e conseguirmos a devida aceitação como artistas como acontece já noutros países que nos são próximos”.

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Draw e Alma
Idiot-Quais as vossas referências e influências artísticas nas artes visuais e plásticas?
Alma- “A minha maior referência é o Caos (MaisMenos), os primeiros ‘fames’ que vi no Porto eram assinados por ele e foi aí que vi que o graffiti ia muito para além do bombing e das tags”.
Draw- “A minha inspiração surge não só de outros artistas de graffiti e street art, mas de todas as formas de expressão artística, desde a pintura, escultura, ilustração e toda a informação visual que me vai chegando diariamente, seja na cidade ou pela internet”.

Idiot-Como caracterizam e definem o vosso estilo de desenho, o traço e técnica?
Alma – “O meu trabalho tem como base o uso do spray, que com o decorrer dos tempos se foi misturando com outras técnicas, tintas plásticas, marcadores. A técnica e traço estão constantemente a ser alterados, é um processo evolutivo. O estilo é a mesma coisa: gosto de estar sempre a experimentar coisas novas, ainda não está muito enraizado”.
Draw- “Essencialmente eu procuro expressividade, tanto a nível da composição e da utilização da figura humana (rostos expressivos) como a expressividade no registo empregue, mais sobre o esboço, riscado, escorrido. As obras não são composições fechadas na totalidade, há sempre um cariz de “por terminar” ou “em progresso” exactamente por usar esse registo quase que de caderno, mas na parede”.

Idiot- O que vos inspira?
Alma & Draw- “Tudo. A música, cores, texturas, publicidade, design, arquitectura. Toda a informação visual e imagética que compõe o nosso quotidiano e o espaço de cidade”.

Idiot-Pretendem expressar algum conceito em concreto nas vossas criações?
Alma- “Certos trabalhos realizo sem qualquer conceito subjacente, outros já são desenvolvidos com uma temática e uma mensagem mais vincada. Não existe nenhum padrão definido, abordo o que achar oportuno transmitir naquele momento”.
Draw- “O trabalho que venho a desenvolver na área do graffiti / street art consiste essencialmente na representação da figura humana e na sua transposição para a grande escala. Um trabalho que, quer seja na cidade ou em galeria, tem como principal objectivo captar a expressividade da figura humana e das técnicas empregues, sobretudo o rosto, de forma a transparecer a carga emocional presente nas minhas peças e com a finalidade de criar uma espécie de interacção sensorial entre a obra realizada e o observador”.

Idiot-Como é que cruzam linguagens, interpretações e criações dentro do mesmo colectivo?
Alma & Draw- “Cada um dos elementos tem uma forma individual ou particular de abordar o trabalho. Pensamos, ao mesmo tempo, ser esse o desafio primordial de trabalhar em conjunto, nomeadamente como Colectivo RUA, onde apesar de ser possível identificar a individualidade de cada elemento, trabalhamos unindo esforços e ideias, de forma a almejar um estilo próprio que nos identifique. Este processo é fruto da partilha de conhecimento, técnicas e ajuda mútua”.

Idiot-Quais os objectivos artísticos do Colectivo?
Alma e Draw- “Tal como tem acontecido desde que nos juntamos, os projectos têm-nos surgido de uma forma muito natural. É óbvio que temos algumas ambições e metas que pretendemos atingir, no entanto, penso que não se devem acelerar nem forçar situações, temos o objectivo de levar isto mais à frente, conquistar novas frentes mas contudo o futuro é incerto. Queremos mais, desde que seja bom”

Idiot-Que peça ou evento vos marcou mais até hoje?
Alma e Draw – “Cada peça tem um gosto especial, dada a situação ou contexto em que se insere. Salientamos o Fórum da Maia, porque na altura foi uma boa experiência, ambos experimentámos técnicas e registos que ainda não tínhamos desenvolvido, que passaram a fazer parte do actual trabalho que temos vindo a desenvolver”.

Idiot-Como foi a experiência do Gare e na Miguel Bombarda?
Alma e Draw – “Boa. Boa visibilidade, contacto com gente diferente (distinta da que acompanha o nosso trabalho de rua) e possibilidade de estabelecer novos contactos.”

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Draw e Alma, Exposição “De olho na RUA” INKY (Porto)
Draw e Alma, Maus Hábitos

STREET ART “IN AND OUT”

Idiot-Quem admiram na street art nacional e internacional?
Alma- “Existem inúmeros artistas internacionais, demasiados para enumerar. Em Portugal o Draw, Virus, Caos, Oker, Maniaks, Tosco, Mar, Smile, Vhils, Mesk, entre muitos outros”.
Draw- “Referindo apenas alguns nomes, penso que a minha inspiração surge de pintores como Santiago Ydañez, Paula Rego, Goya, até nomes do graffiti nacional e internacional como El Mac, ARYZ, Rems183, JR, Borondo, Arm Colective, Alma, Maniaks, CNJS, Mr. Dheo, Smile, MaisMenos (Caos), entre muitos outros. No entanto, penso que aqueles em que mais me inspiro ou admiro são aqueles com quem pinto, com quem partilho paredes, técnicas e ideias”.

Idiot-Como vêem actualmente a street art no Porto? Que principais diferenças sentem no movimento artístico de rua nos últimos anos?
Alma & Draw- “Já teve melhores dias. Actualmente está muito parado, existem várias pessoas a pintar graffiti mas stencil, posters, autocolantes e instalações na rua, cada vez há menos. Têm surgido bons nomes, bons trabalhos mas poucas oportunidades, o que está a condicionar e limitar a criatividade da maioria dos artistas de graffiti / street art”.

Texto: Tish