APESAR DAS INÚMERAS SALAS DE CINEMA DOS DIFERENTES CENTROS COMERCIAIS DO PORTO E PERIFERIA, É SEGURO DIZER-SE O MODO EXPERIENCIAMOS CINEMA SOFREU GRAVES ALTERAÇÕES DESDE QUE A CIDADE DEIXOU DE TER SALAS PRÓPRIAS. A IDIOT MAG DECIDIU FAZER UMAS PERGUNTAS A PEDRO LEITÃO E TIAGO RAMOS, DOIS JOVENS NOMES NO PANORAMA CINÉFILO PORTUGUÊS, SOBRE AS CONSEQUÊNCIAS DESSA FALHA NA PAISAGEM CITADINA.

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Fotografias Christopher Moloney

Hoje em dia, na era digital, a experiência artística, assim como a produção, sofreu profundas alterações. No documentário de 2011, Press Pause Play, discutindo-se a criação do programa Napster, um dos intervenientes menciona como o primeiro momento em que descarregou uma música através do software mudou todas os seus conceitos iniciais sobre a indústria musical, pois num único instante ele percebera que nunca mais iria consumir música do mesmo modo. O mesmo aconteceu com o cinema, uns avanços tecnológicos mais à frente.

HOJE EM DIA, IR AO CINEMA É SINÓNIMO DE IR AO SHOPPING

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No mesmo documentário, declara-se como a experiência do concerto passou a ser a verdadeira prova de um apreciador de um certo
artista ou banda – o mesmo acontece com o cinema. «Ver um filme em sala é equivalente a assistir a um concerto de música. As gravações reproduzem com toda a fidelidade a Obra, mas ela só se torna Cinema quando é vista em tela, numa sala escura, em comunhão com os outros. É por esta componente ritual e social que a projeção se transforma em experiência cinematográfica.» afirma Pedro Leitão, que dirige a companhia Milímetro, responsável pela programação do Cinema Passos Manuel.

O problema é que, atualmente, no centro do Porto, não existem salas de cinema que respondam a essa tradição e valências. Quando o Cinema Batalha fechou, em 2000, a periferia da cidade contava já com perto de meia centena de salas de cinema, nos quatro shopping que, então, abasteciam o Porto.

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Hoje em dia, ir ao cinema é sinónimo de ir ao shopping para o espetador comum e relação do Cinema com o multiplex tem diferentes consequências.
Tiago Ramos, um dos primeiros críticos online portugueses a fazer parte da Online Film
Critics Society, aponta a situação como sendo «sobretudo um problema de diversidade. Os multiplex estão repletos de grandes produções cinematográficas norte-americanas e, só muito raramente, estreiam nessas salas filmes de produção independente, nacionais, europeus ou fora dos EUA. E quando estreiam estão limitados a uma ou duas salas e permanecem em exibição durante apenas uma semana». Pedro Leitão, por sua vez, não considera que o conceito dos multiplex seja negativo, por si, mas aponta, preferencialmente, para o modo como os filmes são distribuídos como raiz do problema, que ele caracteriza como sendo concentrado: «o modelo de negócio dos multiplexes não muda consideravelmente de uma cidade para outra (e muito menos dentro da mesma). É natural, por isso, que a programação entre esses complexos varie muito pouco.»

A CADA SEMANA QUE PASSA PARECE QUE A TRADIÇÃO CULTURAL PORTUGUESA LEVA MAIS UMA FACADA, SENDO A MAIS RECENTE A EXTINÇÃO DA FEIRA DO LIVRO, NO PORTO. A INICIATIVA DO ANDA & FALA, UMA ORGANIZAÇÃO SEM FINS LUCRATIVOS QUE MONTOU O FESTIVAL WALK & TALK, DEVE SER UMA FONTE DE INSPIRAÇÃO E ESPERANÇA

A cada semana que passa parece que a tradição cultural portuguesa leva mais uma facada, sendo a mais recente a extinção da
Feira do Livro, no Porto. A iniciativa do Anda & Fala, uma organização sem fins lucrativos que montou o festival Walk & Talk, deve ser uma fonte de inspiração e esperança que nos obriga a ver que o que fará virar a presente maré serão as nossas próprias mãos – o próprio conceito do DIY (Do It Yourself) é um dos pilares deste festival. No Porto, assistimos
este mês à inauguração do Edifício AXA, um gesto correto para a democratização da cultura, que possibilitará uma grande plataforma a jovens criadores e estudantes. Algo de único do festival Walk &Talk, e até mesmo de deslumbrante, é o modo como as criações dos artistas se tornaram parte da paisagem açoriana, fazendo até aparições em postais e lembranças da ilha de São Miguel. Nas ilhas, para lá do que é considerado periferia, este tipo de expressão artística começa a ser acarinhada até como marco turístico e não podemos acabar este artigo sem deixar de perguntar para quando o mesmo nível de compreensão e exaltação da autarquia do Porto – a segunda maior cidade do país – e dos seus habitantes?

Texto: Tiago Moura