GOSTAM DE ABORDAR O “DESVARIO MENTAL” SOB UMA CONSTANTE PREOCUPAÇÃO ESTÉTICA E O QUE MAIS QUEREM É EVOLUIR SEMPRE NA PROCURA DAQUILO QUE OS MOTIVA. MESMO QUE SEJA NUM JANTAR REGADO DE UM BOM VINHO. NEUTRO, MOTS E FEDOR REPARTEM O DESEJO DE CONQUISTAR UMA “IMAGEM SINGULAR DE UMA VISÃO TRIPOLAR” E SÃO OS ARTISTAS QUE NOS ILUSTRARAM A CAPA DESTE MÊS. A IDIOT ESTEVE À CONVERSA COM OS MANIAKS, UM DOS COLECTIVOS MAIS SÃOS QUE POR AÍ ANDAM.

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Uma obra numa casa “semi abandonada” na Rua do Almada, Porto

Neutro nasceu no Porto, tem 26 anos e vem da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. O interesse pelas andanças do graffiti surgiu por volta da adolescência, mas desde miúdo que se interessa por arte. “Faz parte das recordações que tenho de infância o gosto do desenho” recorda o artista que começou a pintar quando ainda era recente o graffiti no Porto”.

Talvez se possa considerar que a minha influência tenha sido pela ‘moda’ do hip-hop que foi surgindo na época”, confessa. As suas referências e influências artísticas levavam-no a correr atrás dos autores de máquina em punho, para testemunhar o que se ia fazendo na área. Era o caso de Caos, Bif, Pzt, Odd, Birin, Esod, DB, entre outros. “ Na altura, não se usava as internets”, justifica Neutro.

Quando lhe perguntamos sobre inspirações, um bom jantar “regado com bom vinho e boas conversas” parece ser a receita ideal para crescer enquanto artista. “ Fazem-me pensar e ver o que sozinho não consigo”, diz.

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Exposição de Fedor na 1ª Arte na Ramada, Lisboa
Mots vem da capital, tem 27 e optou pelo curso de Pintura da Faculdade de Belas Artes. O seu interesse “consciente” pelas artes surge com a vontade “indominável de querer ter o poder de reproduzir e viver o mundo” dos desenhos animados, banda desenhada e contos ilustrados, coisas que o fascina vam em puto e ainda hoje o encantam.

O graffiti só começou a fazer parte dos seus planos por volta de 2001/2002, e confessa que hoje é a ferramenta que mais usa para dar continuidade às suas criações. Começou a pintar quando tinha 13,14 anos, impulsionado “pelo boom da geração dread e de uma ideia muito fabulada que era o graffiti”, “Na altura, apesar de já viver no Porto, foi em Lisboa que o bichinho pelo graffiti começou a ganhar forma” diz Mots.

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Aqui, na antiga fábrica da seca do bacalhau, em Gaia
Rio de Janeiro, Brasil
Para ele, as viagens que fazia de comboio pela linha de Cascais a observar os muros que iam sendo pintados na altura – “principalmente, os túneis de acesso às praias entre Parede e Carcavelos, autênticas galerias de graffiti”- abriram-lhe o apetite “voraz” para querer fazer parte daquele universo.

As suas influências vão desde nomes como Uber, Merz,Caos, a Ram, Klit, Bif, entre outros, mas com o passar do tempo apercebe-se “que o graffiti não precisa de ser padronizado”. É então que abre espaço para que outras influências nasçam das mais diversas fontes – para além dos outros elementos dos Maniaks – como a música, ilustração, pintura, animação.

MANIAS PARTILHADAS

A ideia do colectivo Maniaks surge então a partir da mesma vontade deste grupo de amigos. Começam a pintar na mesma altura, evoluem com essa partilha comum e hoje confessam-se além de um colectivo de street art “bons amigos e maníacos”. Fedor/Blast – portuense, 27 anos, estudou Artes no Aurélia de Sousa – assume-se como o
vértice que se ocupa de dar ênfase à expressão “cartoon” e urbana, e especializa-se na prática do lettering e nos personagens ao estilo da banda desenhada. A cor e o choque visual são os factores mais importantes nas suas pinturas. Neutro é um artista que gosta de experimentar técnicas e expressões novas, sem se prender a um projecto ou uma ideia predefinida. “É na improvisação e procura de novas formas que encontro o que mais me satisfaz”.

Neste momento assume que pratica um estilo bastante característico, com base em formas geométricas e a partir da “mancha” que produz na primeira fase das suas pinturas. Mots, garante Fedor, é o elemento que possui maior capacidade de desenho e estrutura das formas, bem como a organização do muro em geral.

Consegue adaptar-se a “qualquer estilo, mas sempre com a essência e traço solto” que o caracteriza. O objectivo deste colectivo é evoluir sempre na procura daquilo que os motiva e dizem-se inspirados por tudo aquilo que os rodeia.” Aquilo que expressamos não contém nenhuma mensagem explícita, abordamos principalmente o desvario mental que nos vai nas cabeças, é algo livre”.

Desvario pois claro, ou não fosse o nome Maniaks remetido a uma associação “a vários tipos de desordens do foro psicológico” e representar esse desejo partilhado pelos 3 “de conquistar uma imagem singular”, dessa tal visão “tripolar”.

Este maníacos admiram aqueles com quem partilham o espaço e muros, como Esod, Third, Draw, Alma, Oker e admitem que o Porto tem “artistas de grande nível e com estilos muito próprios”. “Pena é a falta de condições para uma maior união e representação na cidade”, confessam. “Antes havia uma necessidade maior pela partilha, era algo novo e as influências eram muito próximas, pintava-se mais. Mas talvez esta noção seja influenciada pela altura que passamos onde vivíamos as coisas com mais intensidade. Víamos muita gente nova a aparecer e a pintar na rua, mas hoje não conseguimos ter essa consciência”.

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Trabalho dos Maniaks no Edíficio Axa, Primeira Avenida, no Porto

BRIGADA É “DESPERDÍCIO DE DINHEIRO”

Quisemos saber a reacção dos Maniaks a esta febre de limpeza camarária dos graffitis da cidade. E eles são claros: “É um tema muito em voga, principalmente numa altura onde a política vai estar mais presente na cidade. Achamos um claro desperdício de tempo e dinheiro.

Aquilo que limpam vai se voltar a “sujar”, e talvez uma política diferente onde fossem oferecidos espaços para se poderem pintar com o devido tempo fosse mais convidativa (…) Esses espaços seriam benéficos para a cidade tanto num nível pedagógico, como cultural e estético”, contestam. “Em vez de investirmos dias e dinheiro em fábricas abandonadas, onde ninguém vê o nosso trabalho, poderíamos oferecê-lo à cidade”. Para os Maniaks, “é tudo uma questão de lógica”: “se se reprime, há pouco tempo para fazer algo com cabimento, logo apenas há o que a cidade não quer (tags e bombings)”.

Os Maniaks garantem que em todos os locais onde pintam nunca receberam qualquer ameaça ou crítica negativa, “bem pelo contrário”. Isso mesmo testemunharam as centenas de pessoas que assistiram à experiência de pintar a nossa capa deste mês ao vivo no rooftop da Trindade.

“Foi um evento muito bem organizado e fresco. Queremos agradecer à Idiot o convite e a disponibilidade. A nossa palavra de apreço para eles que trabalham com convicção, empenho e acima de tudo gosto”. Igualmente, retribuimos nós.

Texto: Tish