A Baixa do Porto tornou-se um núcleo de cultura urbana, uma incubadora de arte, de estilo e de irreverência. O passado e o futuro cruzam-se neste palco gigante que é o centro histórico da cidade. Se, por um lado temos o saudosismo do século XX, patente nas fachadas dos edifícios e nos artigos das lojas, por outro, temos a modernidade
explícita nos transeuntes que deambulam pelas ruas da Invicta, “quitados” com os últimos gritos da tecnologia, sejam eles smart phones, tablets ou leitores de música.

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Brinquedos na loja “A Vida Portuguesa”, Porto

“NO VINTAGE, HÁ PEÇAS QUE NOS EMOCIONAM”

Apesar de avançarmos para o futuro à velocidade da luz, este século parece caracterizar-se por uma tentativa de regressar às origens, de reavivar os anos de ouro do século passado, de conciliar o que ainda está por vir com o que já foi. Nos últimos anos a massa de jovens adultos interessados por elementos mais antigos aumentou, fazendo surgir uma espécie nova de “colecionadores” que reúne artigos de uma era que lhes parece tão distante como o Renascimento. São, portanto, os artigos Vintage que movem esses consumidores ávidos de peças únicas, originais e especiais.

Uma peça Vintage é um original de época, produzido durante o século XX, que testemunha um estilo próprio. Além disso, são artigos que se mantêm “NO VINTAGE, HÁ PEÇAS QUE NOS EMOCIONAM” intactos, sem terem sofrido nenhuma alteração. Existem, ainda, objetos Retro, que são novos, mas que têm aparência de serem antigos, constituindo uma releitura perfeita de uma época, dum estilo marcante. Numa tarde de sábado não muito solarenga, a Idiot Mag foi passear pela Baixa do Porto em busca de espaços dedicados ao universo Vintage. Encontramos lugares dedicados a vários tipos de comércio, seja a música, o vestuário, o mobiliário ou o artesanato.
Ao descer a Rua do Almada, depressa nos apercebemos que ali existe uma grande quantidade de lojas ligadas a um segmento mais alternativo, mais urbano. Entre os edifícios degradados sobressaem espaços de comércio em andares devidamente restaurados. No número 544, encontra-se a Casa Almada, uma loja dedicada à venda de mobiliário, iluminação e objetos de design do século XX. A empresa surgiu em 2006, numa época em que o interesse das pessoas por este tipo de mobiliário começava a despontar.

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Loja Rosa Choc, Porto

Com a venda online para países como Espanha, Itália e Reino Unido, as vendas começaram a aumentar e atualmente a exportação constitui uma parte considerável do negócio.
Pela Casa Almada tanto passam pessoas da classe média-alta, com possibilidades de investir em peças mais exclusivas, como casais de jovens adultos, que se apaixonam por determinada peça, mesmo antes de começar a mobilar a casa. No entanto, todos os clientes têm em comum uma sensibilidade estética. “São pessoas que não querem comprar uma peça para usar durante três anos e depois deitar fora.

Querem comprar coisas para a vida”, explica Susana Beirão, uma das sócias da empresa. Além da busca de referências do passado, a emoção que os artigos transmitem é dos principais factores que leva à aquisição de um artigo Vintage. Ao contrário do design contemporâneo, “no Vintage há peças que nos emocionam”, afirma Susana Beirão.
A importância do design no imobiliário surgiu após a globalização. As cadeias de lojas multinacionais, com preços mais acessíveis, contribuíram para o fomento do gosto pela decoração e pelo imobiliário do cidadão comum. Susana Beirão afirma que os seus clientes tanto compram nessas lojas como na Casa Almada, conjugando artigos
mais atuais com peças Vintage.

Para Susana Beirão existem dois tipos de objetos Vintage: uns, que são absolutamente ligados a uma época, que são perfeitamente datáveis e que se conseguem misturar com outros estilos; outros, que apesar de terem sido desenhados na primeira metade do século passado, são, no entanto, futuristas, como acontece com “as cadeiras do Mies Van Der Rohe ou algumas peças da Bauhaus, que continuam absolutamente atuais”, exemplifica.

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Loja “Casa Almada”, Porto
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Continuamos a descer a Rua do Almada e antes de nos cruzarmos com a Rua de Ceuta deparamo-nos com uma varanda de um edifício antigo, repleta de roupa, manequins e bonecos. Ao passar pela porta do rés-do-chão, com anúncios de promoções afixados, fica claro que aquele primeiro andar se trata de uma loja de roupa. Após subir as escadas encontra-se uma sala que apesar de pequena não cabe na vista pela quantidade de coisas que contém. Casacos de tweed, saias rodadas ou com folhos, vestidos estampados com flores ou formas geométricas, lenços, plumas, lantejoulas… uma miscelânea de cores, texturas e tecidos. Rosa Chock é uma explosão de Vintage, da qual surgem artigos do século passado, em melhor ou pior estado, para gostos mais ousados e alternativos, a preços mais do que competitivos. Fátima Leite, proprietária do espaço, mantém uma campanha permanente de duas peças a 5€.
A roupa que se encontra neste espaço é maioritariamente em segunda mão, mas também se encontram itens novos, peças de autor. Londres, Brasil, Rússia, Amesterdão, Portugal, são alguns dos países de onde provem a roupa da Rosa Chock, adquirida pela própria Fátima Leite, durante as suas viagens.

As origens da Rosa Chock, localizada no número 225 da Rua do Almada, remontam há pouco mais de uma década, quando surgiu com o nome Zack. No final de fevereiro de 2011, Fátima Leite abriu uma nova loja nas traseiras do Coliseu do Porto, na Rua da Formosa, com o nome Rosa Chock II. Num espaço mais organizado e mais amplo, localizado no número 20 da Rua Galerias Paris encontra-se A Vida Portuguesa. Trata-se de uma loja com produtos de criação e fabricação portuguesa, que resistiram ao passar dos anos e se mantiveram genuínos, tanto na embalagem como na sua essência. Naquele primeiro piso com o chão e as prateleiras em madeira encontra-se um pouco de tudo, desde a pasta de dentes Couto, às peças de cerâmica em forma de couve, passando pelo almanaque Borda d’Água. Cada objeto parece transportar-nos ao passado, mesmo que não tenhamos vivido durante as décadas de 50 e 60 e apenas reconheçamos aquilo que os livros e os filmes nos ensinaram.
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Loja Rosa Choc, Porto

Todos os artigos estão dispostos de uma forma organizada, num local limpo e polido, como qualquer boa casa portuguesa daquela época. Os sabonetes de marcas como Ach. Brito e Confiança sobressaem pelas suas embalagens coloridas e as miniaturas de carros e aviões, em lata ou em plástico, recordam a infância de muitos.

Apesar de A Vida Portuguesa ser um aglomerado de objecto que apelam à memória, Catarina Portas, criadora da empresa, não identifica as suas lojas como um projeto sobre saudade, mas sim sobre a identidade, uma vez que se trata de “produtos únicos no mundo, que revelam de forma surpreendente e arrebatadora muitos dos traços do povo português”, explica a ex-jornalista.

Catarina Portas trocou o mundo da Comunicação Social pelo do “comércio delicado”, no qual é dada atenção a quem vende, a quem compra e ao que se transaciona. A ideia de criar este negocio surgiu enquanto Catarina Portas realizava uma investigação sobre produtos antigos portugueses, durante a qual sentiu que era necessário garantir a sobrevivência das fábricas desses mesmos produtos. “A Vida Portuguesa” surgiu como uma evolução da sua primeira marca “Uma Casa Portuguesa”, em 2007, ano que abriu a primeira loja no Chiado, em Lisboa. A loja do Porto abriu em novembro de 2009.

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Loja “Casa Almada”, Porto

Da tela de cinema para a vida real, os anos dourados do século XX encontram- se bem presentes na Baixa portuense.
Sendo esse o século em que o ser humano evoluiu mais e durante o qual o mundo sofreu mais alterações, importa relembrá-lo. Vintage, retro, old-fashioned… mil e uma desculpas para vasculhar o baú dos nossos pais e encontrar lá itens que para além de continuarem totalmente atuais, constituem um pedaço de história.

Texto: Melanie Antunes