civilizacao

Imaginem que vivemos um planeta onde, de repente, toda a gente via mal e os seus óculos eram funis. Sim, aquele utensílio de cozinha com a forma de pirâmide invertida. Guiar na cidade seria catastrófico, porque as pessoas viam o objectivo perfeitamente, mas o que estava ao lado era coisa que nem lhes passava pela cabeça, ou quando passava, andavam a medo, o que provocava mais acidentes… porque quando se anda a medo e com pressa de chegar a um fim… ao fim do funil, o mais provável é termos problemas a meio da viagem! Pois bem, aqui neste planeta, onde todos somos afunilados, todos os dias ficamos mais fracos, mais cegos, mais magros de carne intelectual. E que saudades dum bom bife do Mário Cesariny!

O poeta surrealista que acabei de lembrar conhecia este planeta, ele viu-o como eu o vejo e chamou-lhe Civilização Ocidental, isto referindo-se ao regresso de Ulisses, dando em seguida a feliz notícia de que em breve iria acabar… mas o facto é que ela tem persistido e o funil tem fechado o glóbulo ocular das pessoas que ainda viam bem! As outras poderiam estar perdidamente cegas para sempre… como aquela cegueira do Saramago que era branca porque da alma!

Esta civilização, portadora de todo o conhecimento, moderno e antigo, contemporâneo e clássico foi coabitando com o homem que, cada vez mais, se tornava umbilical com o poder. Hoje, e já no tempo de Rousseau, o homem nasce livre, mas vai-se corrompendo a cada momento de sociedade. Basta que nos lembremos de conceitos como a política, a religião e o dinheiro que promovem coisas incríveis como a guerra, o fundamentalismo e o capitalismo selvagem.

Esse planeta está tão afunilado que ao fundo do funil a visão é tapada por uma nota de Euro ou de Dólar, restando-nos apenas as sombras platónicas da realidade que se mexem através da luz, à frente daquela venda de cifrões!
Reparem que o homem construiu as estradas para encurtar o caminho para um destino objectivo, foram-se criando estradas e mais estradas, até que hoje andamos na auto-estrada… ora aí está o problema, hoje o homem esqueceu-se de ver as paisagens da estrada nacional, deixou de olhar para o lado e ver que há mais mundo para além daquela objectiva reduzida do dinheiro.

Então há a desordem, o caos, a luta Nietzschiana de todos contra todos, a eliminação do ser humano por ele próprio! Auto-estradas e fim da raça humana?
Pois é bem verdade aquilo que vos digo! E não… não tenho a mania de que sou um iluminado, apenas tenho certo prazer em observar para além dos conceitos que me entregam!

Neste cantinho lusitano, onde todos andamos de funil, criámos um acordo ortográfico que nada mais é do que um tratado económico, em que deixa órfãs as palavras e as lança para um guisado de letras sem ordem, em que os signos são encurtados, como as estradas que encurtam os caminhos, ou os políticos a vida humana! e continuamos todos de funis nos olhos! Os meios de comunicação social absorvem as coisas más e atiram-nas em medida XXL, a vida económica de todos os dias não nos deixa tempo para pensar, atravessamos esta crise de formas erradas e alimentamos esta perigosa civilização ocidental.

De um lado, estão os lobos que querem fazer-te pobre e dependente, do outro, os lobos que querem ganhar as eleições. Isto faz com que vivamos, bipolarmente, entre uma mão direita que rouba e uma mão esquerda que assalta… e aviso já que os há ambidestros aos milhares.

Este planeta enfrenta um período importantíssimo e decisivo para a continuação da vida: Ou pegamos num funil e patrocinamos um suicídio da existência humana, ou então viramos o funil ao contrário aumentando a visão para todas as realidades… e isto sim é tratamento para uma miopia reversível.
No planeta onde todos tinham funis houve quem os tirasse, há quem os tire e passe a ver muito melhor e quando digo ver, não digo simplesmente olhar…

Texto: Rui de Noronha Ozorio