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Estavamos numa de maluqueiras, aproveitar aquilo que só podemos fazer uma vez na vida, e pensámos: vamos fazer fazer uma road trip pela Costa Alentejana na carrinha da Idiot Mag sem gastar muito (gasolina e dinheiro!). E lá fomos nós sempre a curtir pelo Alentejo, agarrados às praias, e a todo aquele mar, com doce agarrado às rochas – todas elas amor – um churrasco ali, umas cervejolas ao por do sol e muita estrada para correr. Não é por acaso que muitas das caravanas e carrinhas que se cruzaram connosco eram de malta estrangeira. “I love Portugal”, diziam-nos. E tem razão.

Notas do viajante: esta viagem foi realizada na carrinha da Idiot Mag, uma Mitsubishi L300 com 26 anos, com duas pessoas. Dividimos as secções de uma casa por caixotes sendo estes: a cozinha, com panelas, um fogareiro que nos custou 24,99€ (um espectacular e todo quitado, encontram facilmente numa Decathon perto de si) e um mini-churrasco; tinhamos a dispensa com alimentos básicos e conservas; a oficina, com ferramentas da carrinha, não vá o diabo tecê-las e sempre dois pneus!; e tinhamos o quarto, doce quarto onde guardavamos cobertores, um colchão de ar e uma tenda, que não chegou a ser precisa para nada. Ah, e também tinhamos duas cadeiras mesmo à campistas que comprámos num supermecado à última hora por 20€. O melhor de tudo: tinha suporte para copos!

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Dia 1: O nosso dia 1 foi aquele que mais andámos. Pudera, a sair do Porto (logo depois de comprarmos as cadeiras) pela auto-estrada que nos levava até Sines, onde começaria a nossa viagem propriamente dita, fomos ultrapassados por 17 camiões TIR, comemos leitão na Mealhada, passámos na Decathlon para nos munirmos de material tão necessário a um campista, como o é um fogareiro ou uma lanterna e atravessamos o Tejo.

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Custo de viagem: nem queriamos acreditar que fizemos 737km com 70 euros de gasóleo (agora percebem o porquê dos camiões TIR e as ultrapassagens…). De portagens foram mais 50 euros.
Já em Sines, três horas da manha, foi uma experiência confusa. Escuridão, rua deserta. Decidimos fazer-nos à estrada, daquelas nacionais e podres. Só que aquela nacional que nenhum de nós dava algo por ela, tornou-se, ao fim de uns minutos das coisas mais bonitas que já possamos ter visto. Bastou olhar para o lado, e do lado apareceu-nos uma costa, o mar mesmo ao nosso lado, uma lua cheia de brilho e nós. Sozinhos nos caminhos de Portugal. Sentimo-nos mesmo naqueles filmes que toda a gente adora e pensa: “quem me dera estar ali!”, achámos logo isso e rimo-nos muito com isso. E depois de todo aquele cinema chegámos a Porto Covo, sem ser destinado, mas também não havia O destino. Já era tarde e ninguém nos quis dar abrigo nos parques de campismo, acabamos a dormir na carrinha no local do parque de estacionamento onde dizia “NÃO ESTACIONAR”. Com muito amor, dos idiotas.

Dia 2: O dia 2 foi logo muito perto do dia 1, na verdade quase não dormimos. Só queriamos era andar por aquelas estradas engraçadas. Vimos umas placas estragadas, talvez pela vivência que tem, ou simplesmente porque não estavam para se chatear com isso. Escritas à mão e pouco fiáveis, decidimos seguir a que dizia “Ilha do Pessegueiro”. Foi uma experiência tipo savana em África, com a estrada menos estrada que nós já vimos alguma vez na vida. E lá estava a ilha a um bocado de mar dos nossos pés. É escusado explicar porque iria ser ali o nosso primeiro almoço campista, onde estreamos os nossos pratos lindos e coloridos. Depois da experiência única voltamos para Porto Covo, para percebermos afinal como é que aquilo era.

Passeamos por todas as ruas mesmo engraçadas com casinhas pequenas e brancas e velhinhos à sombra, e aproveitámos para comprar uma botija de gás, a 5€ – ninguém se lembra da porcaria da botija de gás! – na loja que vende praticamente tudo lá da terra. Até que, surpresa das surpresas, encontrámos uma praia no meio de uns penedos. Funda, a praia estava vazia, era pequena e sem acessos, apenas de uma escadaria quase infinita que se incrustava no meio das rochas. Parece impossível explicar como é que aquilo era por palavras, mas decidimos pegar nas nossas cadeiras, em vinho e comida e fomos churrascar para o meio da praia completamente deserta com o mar nos nossos pés e um banquete nas nossas bocas. Somos idiotas que gostamos de aproveitar as coisas boas da vida. Acabámos a noite num bar da terrinha onde serviam boas caipirinhas e foi aí que percebemos que era a noite do show erótico. Miúdas e miúdos atrevidos naquele sítio e aquela hora. Nunca imaginamos que na pacatez do Alentejo fôssemos acabar a noite daquela maneira. Mas em todos os momentos aconteceram situações que nós não as esperávamos.
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Dia 3: “Comer estrada” começou a ser uma expressão muito utilizada por nós. Não podíamos parar quando havia tanta estrada para percorrer. Foi no dia 3 que chegámos a Vila Nova de Milfontes. Cada terra continuava com as casinhas brancas e os velhinhos à sombra. Apesar de tudo, nesta nova localidade havia malta jovem a passar pelas sombras dos velhinhos. E percebiamos bem que eram os velhinhos que viviam lá e os jovens que apareciam lá para passar o Verão. Do outro lado do rio, eram as Furnas, que também tinham praia. E nós, à bons campistas que somos, almoçamos nas nossas cadeiras em frente à praia, no passadiço que levava os transeuntes a esta. De resto, vivemos bem nesse dia. Passamos a tarde a apanhar sol, entre cervejas e pratinhos de caracóis deliciosos, onde tomámos uma decisão muito pertinente sobre o percurso da nossa viagem: para que precisávamos nós de parques de campismo quando tínhamos uma carrinha enorme para dormir? Dito e feito, passamos na loja chinesa de Milfontes para improvisar umas cortinhas espectaculares para a nossa carrinha. Ao procurar, encontrámos um local perfeito para passar a tarde a cortar cortinas, mesmo juntinho à costa, meio paradisíaco À noite, festinha “pimba” na terra. Que delicioso o ar do Alentejo!

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Dia 4: De cintos postos e janelas todas abertas, rumámos agora até Odeceixe pelas tais nacionais intercaladas com árvores enormes, nas tais estradas mesmo à filme. Passam tantas caravanas por nós. Percebemos que não fomos os únicos a lembrar-se desta road trip. Fomos à praia, mergulhamos na imensidão deste mar maravilhoso e encontrámos amigos. Terminámos o dia em beleza, a fazer um mega churrasco numa praça da Zambujeira do Mar com muitos amigos, comida e bebida deliciosa. Foi a seguir a isto, que demos um pé de dança no bar “Esperma entrando”, com muita música. Não é só no Algarve que nos conseguimos divertir, é um facto muito pertinente.

Dia 5: Situação em que acordamos estupefactos parte 1: ensonados, começámos a ouvir barulho, muito barulho lá fora. Quando não é que abrimos a porta e estávamos a dormir no meio de uma imensidão total, junto à praia, junto aos “feirantes” de tudo e mais alguma coisa. Cães passavam, pessoas ocupavam a esplanada e outras banhavam-se no mar da Zambujeira. Era o dia a decorrer, e nós fazíamos totalmente parte dele. E como tal, tomámos o nosso pequeno-almoço, confecionado por nós ali mesmo, nas nossas cadeiras junto à nossa carrinha no meio de muita gente! Seguimos para a praia, ali mesmo, estivemos com amigos e fomos aliciados a experimentar a “sangria afrodisíaca”, diziam eles, o que não sabemos se se confirma, mas honestamente era horrível. Até que nos lembrámos: esquecemo-nos do nosso pneu extra em Vila Nova de Milfontes!!! Tivemos que voltar a buscá-lo. Coisas da vida.
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Dia 6: Aljezur e Arrifana. Foi na primeira que visitámos o Castelo de Aljezur. Era tão alto o Castelo, que quando lá chegámos ficamos mais entusiasmado com as vistas panorâmicas de toda a vila do que propriamente com o castelo e as suas pedras. Custo de viagem: aqui voltámos a abastecer, que não é de ar que a carrinha vive, com 50€ e um almoço num restaurante da vila, também mereciamos um bocado de mordomias, que nos ficou por 25€. Jantámos na Arrifana, já “cheirava” a Algarve, não pela conjuntura, claro, mas já faz parte no mapa. E por falar em mapas, é de mencionar que no dia 1 guardámos o GPS nos confins das nossas arrumações porque o gajo não se calava e optámos pelo mapa, que ficava melhor nos nossos cenários mesmo à filme. O calor aumentava sempre. Arrifana era a nossa próxima “casa” para dormir, mesmo junto à costa, e ali jantámos com o nosso fogareiro que não nos deixou ficar mal em parte alguma desta viagem. As cervejolas até sabiam melhor ali. E esta era a nossa casa.
Complicado foi explicar como é que uma pequena volta de carrinha depois de jantar se tornou tão crucial, seguindo nós estradas que nós não sabíamos quais, escuras. Em negrume total, estacionámos. Não sei onde, nem como, tudo o que sabíamos era que havia um farol ao lado, o que nos indicava que continuávamos na costa. Ao menos isso. Estávamos mesmo confusos, mas não fizemos mais perguntas.

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Dia 7: Situação em que acordamos estupefactos parte 2: mais uma vez ensonados, acordámos com os berros lá fora. O que seria? Era tudo tão calmo quando aqui parámos, mas não sabiamos nada sobre o sítio onde estávamos, nem sabiamos Onde era! Saímos da carrinha confusos. Feiras, turistas e muitas máquinas fotográficas em punho. Era o cabo de São Vicente, e nós estávamos em Sagres!!! Com esta não contávamos nós, nem esperavamos contar. Não tinhamos sequer noção de que tinhamos percorrido tantos quilómetros. Mas teve a sua piada. Foi um bocado de costa que fizemos sem saber e as imprivisilibidades também podem ser engraçadas… Em Sagres estavamos, e por isso, além de termos ido ao farol completamente requisitado, decidimos conhecer melhor aquela terra, tão vincada no nosso mapa, e fizemos um almoço muito complicado devido à ventania própria. “Porto de Sagres – acesso reservado”, nada nos pareceu melhor. Melhor que isto, só mesmo a praia quente que nos acompanhou a tarde toda para que acabássemos bem esta nossa viagem pela Costa Vicentina, ou Alentejo e afins, a cantar “eu gosto é do verãããããõ….!”

Redatores: Mariana Ribeiro // João Cabral