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Aterrando em La Habana, a milhares de quilómetros do nosso país, mal saberia qual seria o meu destino. Ali, ainda dentro do aeroporto, à espera do visto de turista que me daria autorização de permanecer 30 dias dentro daquele país tropical a que deram o nome de Cuba, país sofrido, com muita história e com um povo singular, deparo-me logo com várias situações que nunca hei-de esquecer.

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Edíficio Bacardi

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Cuba é feito à sua medida e não pode nem deve ser comparado com mais nenhum outro sítio. Com as minhas necessidades básicas por satisfazer, entro na casa de banho, enquanto os outros esperam na fila, e vejo mulheres polícias a fumar. Pergunto-lhes, estupefacta e na minha maior ingenuidade: “se puede fumar aqui?!”, respondem-me que não, não se pode fumar ali, como não se pode fumar em nenhuma casa-de-banho de aeroporto do mundo, mas que efectivamente se fuma ali, e fazem-me gestos de silêncio, como quem me diz “acende lá o teu cigarro, aqui somos todos cúmplices de um crime que nunca poderá ser punido, afinal de contas acabas de chegar ao país dos melhores tabacos do mundo e ainda não te deves ter apercebido disso”. Satisfeitas as necessidades básicas, faltava a parte em que deveria satisfazer a dos que nos serviam naquele país, coisa que me fui apercebendo desde o início. E assim foi, gorjeta para a empregada da casa-de-banho, e gorjeta para as mulheres polícia.

Ainda não tinha pisado território cubano e já me começava a aperceber dos procedimentos cubanos. Com um grande sorriso na cara e um visto na mão, dado por uma senhora com um grande buço, coisa que também achei que poderia ser cultural ou tradicional da terra, saí daquele aeroporto imundo e velho para Havana imunda e velha. Um calor descomunal. Uma cidade linda, mas uma cidade muito traumatizada pelos factos históricos que aqui se passaram. Aqui tentam que todos sejam iguais. Iguais nos seus rendimentos e em habitações, mas nunca iguais em interior, coisa que nenhum ser, humano ou não, será em relação ao próximo.

Com uma arquitectura estupenda, Havana parou no tempo na década de 60, aquando os seus heróis da revolução, Che Guevara, Cienfuegos ou Castro, idealizavam uma sociedade mais justa. Mais nada foi mantido ali. Onde antes vivia uma família, agora vivem dez. Onde antes não faltava riqueza, agora falta-a em todo lado. Para onde foi ela afinal? Não foi certamente para o restauro dos edifícios ou os saneamentos. Havana é podre, e como dizer que algo que está podre possa ser de uma beleza tão grande?

À conversa com Osmany, um empregado de hotel, este foi capaz de me explicar várias coisas que me falhavam: o facto de ele ganhar tanto como um advogado ou um engenheiro. Então quem são os ricos aqui, perguntava, ele dizia-me que não havia ricos em Cuba, mas que quem ganhava melhorzinho era a polícia, que não faltava em lado nenhum. É complicada a vida cá, dizia-lhe eu, é, de facto é, respondia-me, mas sempre foi e sempre será e por isso já não é surpresa nenhuma, dizia de sorriso na cara. É claro que aquele sorriso não poderia ser um sorriso franco, mas era um sorriso de quem já se havia conformado que naquele país, cheio de recursos naturais, não era possível alguém acumular riqueza, e estava tudo dito. Os cubanos são assim, vivem mal, são desprovidos de algum tipo de qualidade de vida mínimo, mas conseguem ser de uma alegria imensa. E um povo calorento também. Lá, as mentes estão muito à frente da sua política e economia. Toda a gente se cumprimenta na rua. Entre locais, então, são cumprimentos mais íntimos – uma palmadita no rabo ou um beijinho mais sorrateiro. Nota especial para as manifestações de carinho entre pessoas do mesmo sexo e para um considerável número de travestis.

Com os turistas, há que ter mais calma neste âmbito, e tudo se fica por palavras, “de onde és?”, “queres taxi?”, “rum?”, “puros?”, “aulas de salsa?”, “una monedita que yo soy pobrecita” ou até mesmo um “queres casar comigo?”, que eu achava que era uma brincadeira. Não era, falam mesmo a sério e só mais tarde me apercebi que também as hipóteses de este povo poder sair do país são tão raras que se aproveitam de todos os turistas para os poderem levar para fora dali. Quem fica umas horas na avenida central, percebe que a taxa de sucesso destas propostas é bastante positiva – nunca vi uma terra com tantos casamentos!

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De resto, Havana é realmente aquilo que é, uma cidade histórica, uma capital traumatizada com os ideais de revolução e socialismo que vieram assolar o país, e que assim o deixou, parecendo esquecido no meio do Caribe. Além disso, existem duas vidas e economias paralelas, – a local e a turística – duas realidades que coexistem, e onde só com a segunda é que toda a comunidade local consegue sobreviver, e ser feliz, ou pelo menos tentar… Ah, isso nunca deixam de tentar.

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Supermercado cubano
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Carro típico Cubano

Texto e Imagems: Mariana Ribeiro