O 25 DE ABRIL É UMA DATA MUITO POUCO INTERESSANTE! EM PORTUGAL CELEBRA 40 ANOS, O QUE FAZ DELA UMA DATA AINDA MAIS DESINTERESSANTE: NÃO TEM O VIGOR E A IRREVERÊNCIA DA JUVENTUDE, NEM A SABEDORIA E A SOLENIDADE DA VELHICE. É, POR OUTRO LADO, UMA DATA DE MEIA-IDADE COM A ROTINA PRÓPRIA DO ADULTO, COM OS INTERESSES VENDADOS EM MENTIRAS.

Festejar o 25 de Abril não é, a meu ver, cumprir a história ou aclamar a Liberdade. Apagar as velas à revolução dos cravos é sustentar a ideia, errada, de que escolhemos bem quem nos governa, é ter a liberdade de nos enganarmos de 4 em 4 anos, de 5 em 5 anos, de legitimar legislaturas que de livres e democráticas pouco têm!

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Antes desta data ter a importância que lhe querem dar, o país vivia uma ditadura quase-morta, atirada às fileiras duma guerra colonial perdida à nascença. Portugal acordava todos os dias cinzento e pobrezinho, isolado e orgulhosamente só, patrioticamente mergulhado nas decrépitas decisões autoritárias de um homem, de um governo que nos empobrecia monetária e intelectualmente.

Na madrugada de 25 de Abril de 1974, aquela madrugada que a Sophia de Mello Breyner esperava para emergir do silêncio, os capitães saíram às ruas para conquistar o homem livre, mas essa liberdade nunca apareceu nem vestida de homem nem de mulher, e o que conseguiram foi apenas tirar o lugar ao bicho papão.

O 25 de Abril de 1975 foi bem diferente do de 1974. Era uma data jovem, irreverente, cheia de ideias socialistas e outras soviéticas, uma data facilmente aliciada por estrangeirismos vermelhos e por outros capitalistas. De um lado estavam os Bolcheviques, do outro os “Carluccis”, mas no meio estavam os portugueses que não percebiam, de facto, o que factualmente se estava a passar. Nesses anos viram militares contra militares, socialistas contra comunistas, partidos contra partidos. Em 1976, já tudo muito mais calmo, decidem fazer uma constituição de república que não foi tão democraticamente concebida como se pensa e que manteve como órgão máximo de soberania o Conselho da Revolução que de eleito nada teve, que de democrático nada tinha e que, livremente, se manteve até 1982. Passados 4 anos, Portugal entra para a CEE com o intuito de beber de lá qualquer coisinha, visto que as colónias era coisa de que já não se podia beber. Se antes estávamos dependentes dos ditadores, hoje somos escravos alemães, e entre uns e outros não sei qual o pior: se ouvir o obedecer em português ou em alemão!

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Provavelmente alguém dirá que, se estivéssemos no 24 de Abril de 1974, nunca poderia escrever ou falar destes temas, não poderia ver a mulher a votar, muitos continuariam a não ter direito à escola e ao ensino, que não poderia demonstrar sentimentos na rua. Mas antes que isso aconteça, penso: hoje, 40 anos volvidos, falamos sem ser ouvidos, votamos em quem nos definha, estudamos por programas convenientes num sistema de ensino altamente corrupto, se vemos uma mulher numa atitude mais irreverente continua a ser puta, assim como um homossexual que ande de mão dada com o seu companheiro continua a ser Maricas ou suspeito de vagabundagem.

Será que as mudanças foram assim tão importantes? Tão culturais? Continuo a ver, sucessivamente, governos despóticos, as mesmas famílias do tempo da outra senhora como detentores do monopólio financeiro, as diferenças sociais cada vez mais evidentes, a direita a roubar com a mão direita e a esquerda a roubar com a mão esquerda, continuamos a ser enganados e a ser postos de parte! E digam-me uma coisa! Passados 40 anos (quase meio século) do 25 de Abril, temos nós razões a sério para festejar a revolução dos cravos? Tem lógica alguma, cantarmos o Grândola Vila Morena?
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Marcelo Caetano, o último homem da ditadura, com a razão que eu não lhe queria dar, disse assertivamente que “em poucas décadas estaremos reduzidos à indigência, ou seja, à caridade de outras nações, pelo que é ridículo continuar a falar em independência nacional. (…) Veremos alçados ao poder analfabetos, meninos mimados, escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data” – e não é que ele tinha razão?!

O 25 de Abril é uma data muito pouco interessante, já não por ser uma data de meia-idade, mas por não ter mudado rigorosamente nada no que toca ao respeito pelo cidadão e pelas suas liberdades e garantias… e não me falem do Sistema Nacional de Saúde que é moribundo, da Justiça que é corrupta nem do Voto que vem envenenado.

Ao que vejo, Abril não se cumpriu! Entre uma ditadura e esta democracia a diferença está no cheiro e na globalização do assalto. Lutarei sempre contra qualquer tipo de ditadura, principalmente esta em que vivemos há 40 anos, bem camuflada de cravos!
Sabem que mais?! Viva a Liberdade! Mas escolham outra data!

Redator: Rui de Noronha Ozorio
Fotografia: Gilles Peress/Magnum Photos