Ir a Natal, que seja no Natal. Nunca, mas nunca se metam a viajar para o Brasil na altura da Páscoa. A Idiot teve de aturar vários grupos de adolescentes histéricos em viagem de fim de curso. “Com sorte não vão para o nosso hotel”, pensámos nós. Azar dos azares.

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Os mais fraquinhos que levem uma máscara de O2. Em Natal, respirar é uma tarefa hercúlea. Só se safam os idiotas que não transpiram, nem a correr a maratona de Lisboa.

Nos autocarros de turismo das agências de viagens ( malditas!), aconselhamos o uso de headphones. Senão levam com a Ivete Sangalo aos gritos, com uma guia turística a ditar regras para as férias, as pulseiras verdes que têm de usar para não se perderem, os horários que têm de cumprir. Bla bla bla. Não fosse a banda sonora, íamos jurar que tínhamos ido para um acampamento da comunidade Taize. Onde também já estivemos, por acaso, mas isso é outra história. Guia de conversação rápido com a guia: “Estamos no Brasil e queremos curtir. Não queremos andar com o rebanho, obrigada”. E ala que se faz tarde.

Em Ponta Negra, a água do mar, escurecida e quente como sopa, está cheia de miúdos surfistas. Às 8 da manhã, a praia já tem imensa gente e o calor arrasa. Há vendedores de água de coco e emigrantes a vender marroquinaria de 5 em 5 minutos. Enquanto degustamos a nossa primeira água – que viria a ser vomitada mais tarde no autocarro – reparamos num grupo de polícias a brandir os cassetetes em direcção ao horizonte. Um grupo de miúdos tinha acabado de assaltar um turista e dois deles entraram no mar para fugir. Ao fim de 15 minutos, os putos acabaram por ceder e regressar à margem, cansados de nadar. Custa ver aquilo. “Estamos no Brasil, isto é frequente”, desdramatiza o agente.

A rua dos restaurantes, à beira-mar desde a praia de Ponta Negra até ao morro do careca, enche-se à noite de turistas e de prostituição juvenil. Ali enquanto provamos a batata doce – e comemos uma salada lavada com água “engarrafada”, dizem eles – ouvimos miúdos de 14 anos soltarem gargalhadas insultuosas a quem não quer pagar por sexo. “ Português? Nem de graça te fazia”.

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O centro histórico de Natal, de traça colonial mixada com neo – clássica, art- déco e modernista, está repleto de relíquias arquitectónicas que convém recordar nos postais. Espreitem o centro de turismo, o palácio Filipe Camarão, a igreja matriz de Nossa Senhora da Apresentação, o Teatro Alberto Maranhão entre outros.

A gastronomia é do melhor e os temperos deixam saudade. O peixe, o marisco, o feijão verde, a macaxeira, a farofa ou paçoca, a tapioca, a carne de sol (salgada) e os doces abundam nesta mesa. Frutas e sumos locais, bolos e tortas de jirimum (abóbora), canjica (doce de milho ralado) e mungunzá (milho cozido em leite) são algumas referências na cozinha nordestina.

Um local a visitar no estado Rio Grande do Norte é o parque turístico ecológico Dunas de Genipabu, a 20 quilómetros de Natal, onde podem ver dromedários nas dunas e fazer uma série de desportos aquáticos “radicais”. Já ouviram falar da aerobunda? Nós fizemos e recomendamos.

Não há nada que pague uma viagem a este país. Mas não esqueçam: uma vez instalados, esqueçam as agências e façam como a Idiot Mag. Contratem um taxista/guia – há vários nos hotéis a preços módicos se dividirem por um grupo – e explorem o verdadeiro Brasil. Que não está nessas brochuras publicitárias nem em packs promocionais. Vão descobrir ilhas escondidas da rota turística, fazer wakeboard com tábuas rudimentares, a tal aerobunda nas lagoas, cantar com músicos enquanto atravessam o rio, ouvir histórias de um povo caloroso e hospitaleiro, comer nas suas casas. Perguntem a quem sabe.

E já agora. Sejam idiotas luso-brasileiros também no trânsito. Quando estiverem parados no semáforo, não queiram fazer o papel do turista simpático com os putos que vos abordam para “pedir” dinheiro. É só um conselho.

Texto: Tish