Subindo ao primeiro andar da “para sempre tattoos”, na primeira linha do mar, fui encontrar César, o ilustrador deste mês para a idiot mag. pensámos em variadíssimas razões , e tentámos perceber se teria lógica que também um tatuador pudesse dar asas à criatividade e ilustrar a revista deste mês. chegámos à conclusão de que nem teria sentido se assim não fosse. Um tatuador é um artista, e um artista deve sempre estar preparado para novos desafios. e César parecia nascer já preparado.

tattoo_dois

César Figueiredo começou a tatuar em casa com 18 anos – passaram vinte até ao momento em que falámos com o artista para que esta página da Idiot Mag se tornasse possível. Era o período da pouca ou nenhuma informação da tatuagem, onde não havia revistas, internet ou qualquer outro meio que pudesse difundir esta arte corporal, tão pouco usada no nosso Portugal. Não sabia nada, “praticamente nada” sobre tintas, técnicas ou agulhas. Foi apenas no ano de 93 que César comprou a primeira – a primeira de todas – revista de tatuagens que lhe veio abrir os seus horizontes, principalmente quando nessa mesma revista se deparou com um kit de tatuador. Vinha dos Estados Unidos, o que dificultou muito o processo quando se apercebeu que nem para a Europa era feita esta distribuição. Nada feito.

Passados mais uns anos de um ligeiro desespero, de ver uma arte tão longínqua, tanto em termos técnicos, como ideológicos, surge-lhe da mão de um amigo o jornal “Blitz” (n.r. jornal de culto dos anos 80 onde eram divulgadas as novidades na música) , onde teve a felicidade de reparar que nos classificados, no meio de todo a compra e venda de instrumentos musicais, aparecia um anúncio de uma máquina de tatuar à venda em Portugal. Eram tempos negros, e este classificado tornou-se “um achado”, um “tropeçar no euromilhões”. E tornava-se um segredo que não se partilhava com mais ninguém, o saber onde se podia encomendar uma máquina. Havia pouca concorrência, mas a que havia era feroz. Escusado era bater à porta de um tatuador e dizer-lhe “olhe, se faz favor, onde arranjo uma máquina igual à sua?”.

tattoo_um

Por volta de 94, com alguns destes obstáculos ultrapassados, já César estava a montar o seu primeiro estúdio, em conjunto com amigos, uma loja “multifacetada”, não só de tatuagens, como também vendia discos, roupa usada e merchandising, mas que César definia um pouco como “o mercado negro”. Aparecendo, então, novos obstáculos, na loja e na sua clientela começou-se a notar vários problemas estruturais, como – mais uma vez – a pouca informação relativa a esta modificação corporal. E, além disso, como a loja não dependia somente deste negócio, passado um ano César retornou a sua actividade em casa para amigos. Foi neste período, que durou até 99, que César cresceu exponencialmente como tatuador e o seu trabalho passou a contar com alguns reconhecimentos.

tattoo_cinco

A partir deste ano, César, com as baterias carregadíssimas, decidiu “voltar à cena”, e assim se mantêm até ao momento em que me sento a ouvir o testemunho deste artista, no seu próprio estúdio, acompanhados de uma banda sonora de “tzzzzzzz tzzzzzzz tzzzzzzzz” e a pele onde César apoia a sua agulha. César gosta mesmo do que faz. Começou com um amigo, passou a ser sozinho e voltou a juntar-se, desta vez com a mulher, Paula. De 99 até hoje, César instalou os seus estúdios “Para Sempre Tattoos” na Rua do Almada, no Invictus de Passos Manuel, em Santa Catarina e, agora e finalmente na Avenida Brasil.

Em relação à visão que tem desta área, César afirma que já viu várias alterações, bem como as visões desta arte se foram alterando ao longo do tempo. Quando começou, César tinha um público muito específico, de uma onda mais alternativa. Hoje, aparecem-lhe pessoas para tatuar de todos os feitios e gostos. Explica que antes quem ia tatuar ia para “ter uma tatuagem”. Hoje, as pessoas sabem melhor o que querem, que estilo querem e porquê. César apoia que talvez seja por esta alteração de valores que a dimensão (e quantidade) da tatuagem hoje em dia também acaba por ser maior. Tem sorte e talento. E a mistura dos dois faz com que este artista conte com dias carregadíssimos de clientes. Na Para Sempre Tattoos, um lugar cheio de luz e testemunho maior de que o sol se põe no mar, César Figueiredo diz que é como os cozinheiros confinados à sua cozinha. E a melhor de todas? Não se importa mesmo nada.

tattoo_quatro
tattoo_tres

Texto: Mariana Ribeiro