E SE O ARREPENDIMENTO MATASSE? TODOS OS DIAS EXISTEM CASOS DE ARREPENDIMENTO, TANTO PELO DESENHO ESCOLHIDO, COMO POR MOTIVOS PROFISSIONAIS OU POR SER UMA TATUAGEM QUE JÁ NÃO FAZ SENTIDO NA VIDA DAQUELA PESSOA NAQUELE DETERMINADO MOMENTO. EXISTEM TRATAMENTOS PARA A REMOÇÃO DE TATUAGENS ATRAVÉS DO LASER, QUE, NUNCA FICANDO TOTALMENTE APAGADA, CONSEGUE DISFARÇAR BEM. TAMBÉM HÁ QUEM PREFIRA TAPAR A TATUAGEM COM OUTRA, “TODOS OS DIAS APARECEM CÁ PESSOAS COM ESSE PROPÓSITO”, CONTA PAULA DIAS.

t1

Como começou

2000 a.C. Civilização egípcia.
Indivíduos do sexo feminino começavam-se a marcar com linhas e pontos. Apesar de não sabermos com que finalidade, é fácil perceber que tudo se deu de forma acidental: uma ferida
aberta, um qualquer pigmento e a união deu origem ao primórdio rudimentar da primeira tatuagem do mundo. A partir daí, tudo teve o seu tempo e as suas especificações até chegarmos ao tempo, o de hoje, em que toda a dermopigmentação começa a ser vista com outros olhos, mais fascinantes, mais gerais e sobretudo, assentes numa sociedade que vai acatando aquilo que lhes é oferecida pelos seus cidadãos.

O porquê da tatuagem é eficaz para explicar todo este desenvolvimento: tribos, com existência milenar, começaram a tatuar-se para marcar factos da vida biológica como o nascimento e a morte. Mais tarde para marcar acontecimentos da vida social, como as guerras, o casamento ou garantir a vida depois da morte. No Império Romano a tatuagem era usada para identificar prisioneiros. E por aí foi crescendo sempre num modo mais ou menos homogéneo.
Entretanto, já na altura da era Cristã da Idade Média do Ocidente, a tatuagem acaba por cair em desuso, pela proibição do Papa e o paganismo que era associado à época. No próprio livro do Antigo Testamento, no Levítico pode-se ler: “Não façais incisões no corpo por causa de um defunto e não façais tatuagem.”

t2
Imperialismo Britânico, em pleno século XVIII, o navegador e explorador inglês James Cook redescobre a tradição aquando das suas viagens à Polinésia, onde registou o costume de “homens e mulheres que pintam os seus corpos” no seu diário de bordo, onde explicava que as “tattow” ou “tatau” tinham a sua origem etimológica no som que se ouvia durante a execução da tatuagem, que se fazia através de ossos finos e um martelinho para introduzir a tinta na pele. Também foi aqui que a palavra tattoo, apelidada por Cook, foi popularizada no meio dos
marinheiros ingleses que, ao visitar as costas do Pacífico ficavam maravilhados com a arte que se fazia nos corpos dos nativos. Estes marinheiros criaram desenhos muito próprios com motivos simbólicos para o estilo que levavam. Certos desenhos identificavam um marinheiro que já tivesse atravessado um certo oceano, enquanto a figura de uma mulher representava o amor fugaz com “uma mulher em cada porta”, dizia o ditado. Porém, em 1879 o governo de Inglaterra começou a utilizar esta técnica para identificar prisioneiros com as iniciais “BC” – Bad Character, como em vários momentos da História. Com isto a tatuagem acaba por se tornar símbolo da marginalidade vivida em Inglaterra. Apesar de mal vista na sociedade de então, é também aqui que Charles Darwin, naturalista britânico que estudou a evolução das espécies, afirmou que já nação nenhuma desconhecia esta prática.

A evolução da técnica

Foi em 1891 que Samuel O’Reilley desenvolveu a máquina eléctrica da tatuagem, que pôde dar o impulso necessário à massificação que hoje se assiste. Esta máquina, que foi inspirada na caneta copiadora à pressão de Thomas Edison (ver caixa 1), tornava todas as técnicas tribais e locais obsoletas à luz da nova máquina vanguardista.
A partir daqui tudo foi natural. Com várias
alterações, mas sempre mantendo o protótipo original de O’Reilley, a máquina foi chegando a vários países, cada um a seu ritmo e consoante a consciência pessoal e criativa dos vários povos ocidentais.

t2
    Na verdade, o primeiro percursor da máquina de tatuar foi Thomas Edison, o inventor da lâmpada eléctrica, que patenteou em 1876 a caneta copiadora à pressão ou a “caneta eléctrica”, entre outras 1300 patentes que registou. No entanto, este aparelho que servia para copiar documentos de forma rápida, nunca chegou a ter sucesso. Curiosamente, Thomas Edison ostentava uma tatuagem com o desenho de cinco pontos no seu braço esquerdo. George Orwell, Winston Churchill, o rei Harold II de Inglaterra ou Franklin D. Roosevelt foram outras personalidades históricas que ostentaram tatuagens.

Com o contínuo crescimento desta arte, a tatuagem também teve um momento alto da sua existência na Segunda Guerra Mundial, pela utilização que lhe era dada tanto em sentido positivo como negativo. Foi nesta altura que os soldados que eram enviados para a guerra tatuavam nos seus corpos os nomes das namoradas e mulheres, sabendo que voltar a vê-las podia ser difícil. Uma outra utilização era a da identificação dos judeus no Holocausto. Aquando os campos de concentração aos prisioneiros eram-lhes tatuados os seus números de identificação através de uma placa de metal que se prendia à carne e que, fazendo ferida, se espalhava a seguir a tinta sobre esta.

Tatuagem como forma de expressão

É na segunda metade do século XX que a tatuagem se identifica mais com a concepção que hoje mantemos. Grupos juvenis idealistas da liberdade de expressão que querem agora impor e com a emergência das novas artes urbanas e underground, começam agora a contar com a tatuagem como ferramenta corpo- comunicação. Novos artistas começam a ver a arte com novos olhos e a criar o corpo como suporte desta corrente. Nos anos 70 o movimento punk nasce com vontade de querer mudar todo o paradigma social e político. Estes grupos adoptavam um estilo alternativo recheado de mutilações corporais, cabelos coloridos, piercings e tatuagens por todo o corpo como forma de exprimir a sua alienação e insatisfação pelo sistema corrente. O corpo passa a ser um território. Toda a forma de vestir e o “budy building” pertencem a uma autêntica forma de mostrar ao mundo muito do nosso imaginário político, pessoal, musical e ideológico. “Essas manifestações são comportamentais e pertencem hoje à cultura ocidental. Na sua emissão, elas são globalizadas, mas são individualizados no seu uso, afirma Célia Maria Antonacci Ramos, autora do livro Teorias da Tatuagem.

No sentido comercial, a tatuagem começa simultaneamente a ser usada por membros de bandas de rock e, consecutivamente a exercer influência juntos dos seus públicos. Aumentando o seu consumo para outros géneros musicais e com a adesão das grandes celebridades, hoje uma loja de tatuagens recebe “todo o tipo de pessoas”, afirma Paula Dias, proprietária da Para Sempre Tattoos. No ramo há mais de 15 anos, Paula explica que se deve dar mais valor à casa, ao artista e às imposições higiénicas que devem sempre existir, por isso a “qualidade paga-se” e deve-se pagar. Questionada sobre qual foi a tatuagem mais bizarra que já lá foi feita, Paula é intransigente: “não há a tatuagem mais feia, cada uma é como é e cada uma tem o seu sentido”.
Consumida até na televisão, com programas dedicados como Miami Ink ou LA Ink, que alcançaram audiências astronómicas de milhões de espectadores, tanto nos Estados Unidos, como no resto do mundo. Massificada e globalizada, hoje em dia, a tatuagem já é algo totalmente comum em toda a cultura ocidental e que se previligia de ter uma cultura que, mesmo assente e derivada de outras culturas, se pode orgulhar de ser própria e específica e de ser dotada de um grande poder de expressão individual e estético que nos deliciam o olhar ou que, pelo menos, já não nos faça confusão olhar para uma.
Redatora: Mariana Ribeiro