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Há uns meses atrás fui convidado para fazer parte de uma conferência em Coimbra para falar do tema “O Futuro Do Analógico” e até à altura nunca tinha pensado em prever o que seria ou não do formato nos próximos dez, vinte ou trinta anos – pura e simplesmente fotografava sem me preocupar com aquela marca que descontinuava uma série de negativos, acontecimento que deixava toda a gente com expressões de pesar no facebook e a comentar só com smiles tristes. Aceitei o convite, criando o desafio de ter uma opinião sobre o assunto e de finalmente me preocupar com o meio que me levou a gostar de fotografia.

Não tive hipóteses em Coimbra de dizer um terço do que vou dizer a seguir, e foi para ter essa oportunidade que pedi à equipa dos Idiotas para aceitarem este artigo – espero que tenha valido a pena esperarem tanto tempo por isto.

Na cultura “mainstream” há um mito que as câmaras analógicas “acabaram” ou que são raras, que é difícil e caro arranjar filme x para a câmara y, que é um problema encontrar sítio para fazer revelações, que o digital compensa mais, que as câmaras de filme são “relíquias” e deviam ter o valor de relíquia (um fenómeno no mercado de leilões português, onde câmaras de 3 tostões são vendidas a 100€ porque “são para apreciadores”) – eu percebo perfeitamente a desinformação, dado que vivemos numa cultura da informação negativa onde não é a boa notícia que dá mais likes e comentários e a nostalgia é perfeita para cravar comentários. Não vou negar que o analógico não é o que era – hoje em dia vive de quem é realmente apaixonado ou de quem tem necessidade de experimentar para além da rigidez do digital, mas será que isso quer dizer que os produtores de meios analógicos vivem no prejuízo

Em 2008 a Polaroid anunciou o fim da produção do seu famoso filme para série 600 – para muitos isto foi visto como o coup de grâce depois de 8 anos de queda de vendas abruptas e esse mesmo coup de grâce foi interpretado como o derradeiro adeus do instantâneo. No Japão a notícia chegou com o mesmo pesar que chegou ao Ocidente, mas em vez de uma lágrima no canto do olho, os japoneses pura e simplesmente encolheram os ombros e continuaram com a vida.

Polaroid-film-pack

Porquê?

Os japoneses são conhecidos por viver no futuro desde os anos 80, sempre associados a tudo o que é do mais hightech possível, desde aos transportes públicos à pornografia animada (ou não) – a preocupação com o analógico é coisa de ocidental ainda agarrado ao passado e a disciplina nipónica não os permite de perder tempo com trivialidades; há muito que brincavam com aquela DSLR ou com o Bluray antes de as apresentarem como novidade aos primitivos europeus e americanos.

Obviamente que estou a exagerar – a verdade é que os japoneses tinham e ainda têm a Fujifilm e os seus filme Instax e FP que já dominavam o mercado do instantâneo com fórmulas bem mais estáveis na altura em que as contas da Polaroid derrapavam,. Como se isso não chegasse, grande parte dos filmes de 135mm e 120mm são hoje em dia fabricados no continente asiático – mesmo os filmes da americana KODAK – é à custa disso que os japoneses têm a sorte de ter autênticos supermercados chamados Yodobashi Camera, uma espécie de Pingo Doce da tecnologia com andares completamente dedicados a produtos de fotografia analógica a preços de tenda de marroquino.

analógico_dois

Ao mesmo tempo no velho continente o consumidor analógico europeu vê-se de joelhos a pedir forças face aos preços que por cá se praticam., enquanto por trás a cobra do digital sibila “anda, prova esta maçã.jpeg comprimida num cartão SD! Não há nada mais prático… É só tirar, por no computador e mostrar aos amigos no Facebooksss.”
Há uma série de factores que permitem este fenómeno por cá (o dos preços, não o da cobra que fala): desde o lojista que acha que é o único na cidade a vender aquele produto exótico e acha que pode fazer um preço inflacionado, talvez influenciado pelo distribuidor sem escrúpulos que tão pouco se está a borrifar para o futuro do formato, até à burocracia das nossas fronteiras económicas que seguram importações durante meses e que ao fim taxam a encomenda por dias em que esteve à espera de ser processada. A verdade é que nunca pagamos os preços justos por determinados produtos – éramos ricos, dos mais ricos no mundo até há bem pouco tempo atrás e não havia problemas em pagar preços inflacionados pelos consumíveis analógicos – tal como acontece hoje em dia no digital (na fotografia, nos electrodomésticos, nos gadgets, nos telemóveis…).

Isto quer dizer que, enquanto o Ocidente chora e comenta “:(“ nas notícias que falam do fim à vista daquelas empresas centenárias que nos ajudaram a guardar as memórias de infância, os asiáticos gastam negativos em câmaras com lentes de plástico sem sequer se arrependerem e sem sequer se preocuparem com o fim do analógico que está longe de ser uma realidade para eles. Parece um bocado sombrio para nós, não é?

Em 2011 as receitas de venda de Vinyl aumentaram 39% (2.8 milhões de unidades em 2010, 3.9 milhões de unidades em 2011), a Kodak e a Fuji apresentaram novos filmes para Super8 e 16mm (actualizando fórmulas de filme) e 2012 viu o regresso do filme de 110. “E o principal consumo é feito a que nível?” perguntam vocês e muitos diriam “só os profissionais é que mantêm o formato vivo – os djs, os realizadores, os fotógrafos… ” e eu respondo que esses muitos estão redondamente enganados. Na realidade a maior parte dos consumidores de vinyl compra para ouvir música em casa, os principais consumidores de filme são realizadores amadores ou malta que se deixa seduzir pelas câmaras encontradas no sotão, e quanto aos utilizadores de filme fotográfico podemos dizer que o fim dos loucos anos 10 (de 2000) viu um boom de consumo quando surgiram os novos fotógrafos analógicos graças a uma famosa marca austríaca vista pelos média como responsável pelo comeback da fotografia de filme – marca essa que fez de câmaras de plástico analógicas uns autênticos fenómenos de moda; se são ou não os verdadeiros salvadores não sei, mas a verdade é que, por mais passageira que possa ser, a moda não deixa de ter o seu peso nas tendências do mercado.

Muitos devem conhecer a iniciativa que surgiu por parte de antigos empregados da Polaroid em ressuscitar o lendário papel fotográfico, iniciativa essa chamada Impossible Project, e também devem saber que, quando se confirmou que a Kodak estava em risco de falência, a solução foi cortar completamente no mercado do digital e apostar no mercado do analógico. Ok, pode haver o argumento que o projecto IP é um projecto de amor com investidores milionários que não estão à espera de retorno, mas a Kodak tem uma equipa de analistas de mercado, e se o conselho foi o de manter a produção de negativos viva (por mais que nos custe ter demorado a decisão – demora essa que fez desaparecer o Kodachrome – é melhor estar num mercado de nicho do que não estar em nenhum mercado).

Alguém na conferência perguntou “O que diriam para convencer as pessoas que se converteram ao digital ou que sempre usaram digital a voltar para o analógico?”
Óbvio que o analógico não substitui hoje em dia a comodidade dos bytes e nunca mais voltará a ser o standard, mas não é por isso que não se podem complementar: o digital para uns fins mais “seguros” e o analógico para fins mais experimentais. Posso dar 2 bons exemplos:
Kristian Jalonen é um fotógrafo sueco pelo qual a Analog Nights tem especial carinho – tal como a maior parte dos fotógrafos, Kristian adora fotografar a natureza, retratos e paisagens, mas a grande diferença é que o faz usando rolos que levaram banhos de sopas químicas. O resultado são verdadeiras manifestações impressionistas

analógico_tres
As câmaras que usa não são, de forma alguma, especialmente adaptadas à sua técnica – os negativos são apenas banhados durante dias (conforme o efeito que quer fazer) e deixados ao sol a secar para as câmaras não se estragarem. Depois sai à rua e dispara, umas vezes sem pensar muito, outras com alguma coisa em mente. Podem ver mais do seu trabalho no site

Outro caso é o do músico de Techno alemão Thomas Brinkmann que é conhecido pela sua técnica de composição. É assumidamente experimental mas não deixa de ter resultados sólidos e dançáveis. O que ele faz, tanto no estúdio como ao vivo, é complementar analógico com tecnologia, pegando em vinys e num x-acto e ir riscando os vinys até ter um som que lhe agrada, som esse que grava no portátil onde faz loops e processa. Dá ideia que dá um monte de barulho mas a verdade é que, ao fim de 10 minutos, só temos vontade de nos levantar da cadeira e dançar.

A conclusão é que, o analógico viverá enquanto se descobrirem sempre novos propósitos para a sua utilização fora do seu uso convencional, e isto aplica-se ao áudio, como à fotografia e ao vídeo. Há características impossíveis de emular no digital, como o toque, os defeitos provocados pelo tempo e pelas condições onde é armazenado o registo (o caso dos Boards of Canada que gravavam músicas em K7 e depois as enterravam num monte de terra público durante meses – o resultado eram flutuações na fita que davam aquele toque retro e gasto que caracteriza a sua música) ou até as próprias tonalidades de certos filmes.
E quanto ao argumento que diz que “é muito caro” só tenho a dizer que é mentira: é um preço justo a pagar por tudo aquilo que nos permite fazer.

Redator: Ludovic Analognights