QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU? FEMINISMO: RÁPIDA RESENHA HISTÓRICA, DESMONTAR DE ALGUNS MITOS E PORQUE HOMENS, MULHERES, TRANS E TODAS AS OUTRAS IDENTIFICAÇÕES DE GÉNERO DEVEM TER ORGULHO EM SER FEMINISTAS.

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Quando era novinha, desde o momento que aprendi o abc, quando não sabia o significado de algo, a resposta comum era: “Vai ao dicionário!”. E assim aprendi o queria dizer samaritano e inexorável. E me tornei curiosa e desenrascada. Mas depois há sempre aqueles bichos maus, que sem sabermos bem o que é, sabemos que não queremos ser, as palavras que os media e a sociedade nos ensinaram a ver como perigosas, extremas, carregadas de sinónimos tão antónimos do que são, como ovelhas em pele de lobos.

Parece-me que dois deles ainda imperam. Os anarquistas, ai os perigosos anarquistas (um dia destes lá iremos, também.) e as extremistas feministas!

Primeiro, não são as feministas, são os feministas, as feministas, xs feministas! Não é cláusula sine qua non ser portadora de vagina para ter uma ideologia feminista, parece-me muitas vezes que a única cláusula neste caso é o mínimo de bom senso…

E do que nos lembramos quando pensamos em feminismo, das sufragistas que lutaram pelo voto das mulheres, dos movimentos que lutaram pelos direitos laborais nos anos 40, de tipas de pelo na venta, e debaixo dos braços, de outras que condenaram a pornografia e os meios de comunicação pela objectificação da mulher e, claro, daquelas
loucas que queimam sutiãs e odeiam homens! História, história, parcialidade e distorção, distorção.

Efectivamente, o primeiro movimento feminista, é um movimento pela igualdade de direitos de uma minoria de direitos. Lutou-se, e conseguiu-se a cada luta, voto e igualdade legislada para ambos os géneros, a par com lutas contra a segregação racial e escravatura, ao qual as primeiras feministas sempre estiveram ligadas.

Em 1792, Mary Whollstonecraft, escreve “A Vindication of the Rights of Woman: with Strictures on Political and Moral Subjects (1792)” que defende não apenas o direito à educação como afirma que, da igualdade na formação de ambos os géneros, depende o progresso da sociedade como um todo.

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Seguem-se as sufragistas com a luta pelo acesso ao voto e existência legal.

Nos anos 60, 70 surgem movimentos de liberação feminina iniciados que lutam pela igualdade legal e social para as mulheres, surge o mote “o pessoal é político” que chama à luz desigualdades culturais e políticas das mulheres como ligadas inexoravelmente, e encorajava mulheres a compreenderem aspectos das suas vidas pessoas como sendo profundamente politizados, refletindo as estruturas de poder sexistas. Surgem termos como patriarcal e Simone de Beauvoir entoa “On ne naît pas femme : on le devient.”, na obra de referência O Segundo Sexo. Começa uma era onde se pensa o género mais como genital, cultural.

O feminismo nos anos 90/ 2000 visa desafiar ou evitar aquilo que vê como as definições essencialistas da feminilidade, questiona o porquê da heroínas libertadas terem tudo, carreira, poder e continuarem à espera do principe que as liberte, defende a autodeterminação sexual e aos direitos do próprio corpo. Mais recentemente surgem as Slutwalks contra a cultura de violação. Ao mesmo tempo o feminismo alia-se à luta pelos direitos lgbt e a movimentos de direitos de animais, surge também o ecofeminismo.

Em todos os movimentos há nuances, defesas de direitos diferentes, posições contrárias, há muitos feminismos, lutas de primeiro e terceiro mundo.

Em todos eles uma constante, a igualdade e a defesa das minorias. Étnicas, sexuais, de género, raciais, de direitos.

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feminismo_dois

GUIA RÁPIDO PARA NÃO METER A PATA NA POÇA
FEMINISMO

Defesa da igualdade de direitos entre todos os seres humanos, sem distinção. Quando necessário, através da descriminação positiva da mulher.

MACHISMO

Falsa superioridade do homem sobre a mulher. Provoca discriminação e violência física e verbal.

MISOGINIA

Ódio a qualquer elemento ou representação do género feminino.

MARIANISMO OU MÍSTICA FEMININA

Falsa superioridade da mulher sobre o homem. Provoca discriminação e violência física e verbal.

O MITO DAS MULHERES QUE QUEIMAM SOUTIÃS.

nos 60, mulheres queimam soutians em revolta contra a estrutura opressora.
Uma declaração poderosa, simbolicamente declarando o desejo das mulheres pelo seu poder feminino para estourar as restrições patriarcais e de afirmarem livres, não mais confinadas pelas rendas e spandex da moral social tradicional.

O QUE ACONTECEU NA VERDADE

Anos 60, mulheres queimam soutians em revolta contra a estrutura opressora.
Uma declaração poderosa, simbolicamente declarando o desejo das mulheres pelo seu poder feminino para estourar as restrições patriarcais e de afirmarem livres, não mais confinadas pelas rendas e spandex da moral social tradicional.

O QUE ACONTECEU NA VERDADE

Nunca aconteceu, tanto quanto qualquer um pode dizer.
Mulheres em Nova Yorque protestaram contra o concurso Miss America 1968 atirando vários itens numa lata de lixo, incluindo sutiãs, cintas, sapatos de salto alto e revistas femininas, rotulando-os de “instrumentos de tortura”. Mas o fogo não estava envolvido, nem as mulheres realmente removeram os seus sutiãs no protesto, inexplicavelmente optando por reunir os sutiãs de antemão, e permanecem completamente vestidas. Como estavamos no rescaldo dos protestos contra a guerra do Vietname, onde era comum a queima das cartas de chamada ao exército como forma de protesto, confundiu-se tudo. Afinal, todos perigosos terroristas são amantes da paz e igualdade, não é?

PORQUE É QUE EU PRECISO DO FEMINISMO?

Porque o meu género não pode ser justificação para pagamentos mais baixos, nem discriminação no acesso a cargos decisórios.
Porque quero que mais mulheres cresçam com exemplos de mulheres em cargos políticos de poder, com heroínas ficcionais como a Lisbeth Salander, que não precisa de homem nenhum para se salvar, mas se salva a si mesma.

Porque nunca a minha beleza deverá, desde criança, ser priorizada em relação a outras qualidades como a criatividade, inteligência e indepêndencia.

Porque o facto de ser mulher não pode servir para me minorarem num meio científico, como aconteceu Ben Barres, neurocientista trans, antes a já conceituada Barbara Barres, e que no primeiro seminário que dá como homem já, ouve comentários como “O trabalho do Professor Barres é bastante superior ao da sua irmã Barbara.” (grande gafe, não é? – ver site para mais informação).

Porque tipos como o Todd Akin, congressista norte-americano, continuam a dizer barbáries como que uma violação legítima nunca dá origem a uma gravidez. site
Aconselho também a leitura deste artigo.

Porque me ajudou a tornar mais atenta a uma série de comentários paternalistas destinados a minar a minha autoconfiança.

Porque tenho direito ao pleno livre-arbritio do meu corpo e não existem tais coisas como comportamentos de senhora. site

Porque a minha função neste mundo não é ser personagem secundária na história de um qualquer herói, como a maioria das ficções e filmes me quer ensinar.

Porque o facto de estar grávida não pode ser justificação quer para o não acesso a um trabalho, quer para despedimento. site

Porque existem homens, mulheres e trans vitímas de violência doméstica.

Porque não só no terceiro mundo, mas também no primeiro ainda existe muito porque lutar.
Porque como eu, muitos outros acreditam na igualdade e sabem o nome disso. Feminismo.
Por tantas outras razões.

Visitem: http://quemprecisadofeminismo.tumblr.com/ e http://whoneedsfeminism.tumblr.com e descubram as vossas razões também!

Texto: Carmo Pereira