Acordei tarde e ainda tenho de fazer a mochila para a praia: Toalha, bronzeador não vá o encarnado encarnar, havaianas, garrafa de água e duas maçãs para me sentir saudável ao lado dos veraneantes mais despreocupados.

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Mas o mais importante não pode ser esquecido: Verso e Prosa, de Mário de Sá-Carneiro, uma edição da Assírio & Alvim organizada pelo Professor Fernando Cabral Martins. Este livro anda sempre comigo pelo meio da areia e só não o levo para o mar porque correria o risco que a água salgada se agitasse, encapelasse e me devorasse a leitura bem mais rápido que eu e com um efeito sem retorno da obra à vista.

O Mar tem este efeito consumidor nos livros, devora-os e acolhe a Literatura e a Poesia dentro de todo o mistério da profundidade, mas de vez em quando ainda vemos uma folha ou outra a passear em cima das ondas onde conseguimos ler vestígios de algum poema disperso: “Perdi-me dentro de mim/ porque eu era labirinto,/ e hoje, quando me sinto/ é com saudades de mim…”

And what about us? E os livros que nós não devoramos mas que deveríamos devorar? Porque achamos que ficamos menos morenos se dedicarmos um pouco do tempo da praia à leitura? O Sol está lá… queima e bronzeia na mesma! Mas não… temos de estar como o bacalhau, a demolhar ao sol bem salgados e adormecidos junto ao mar porque estas praias com iodo diz que fazem bem à saúde e o moreno permanece mais tempo. A praia surge então como uma espécie de intervalo para nos sentirmos abjectos, mas felizes.

A leitura cansa o corpo, a literatura desgasta o espírito em cada linha impressa. Ainda se for uma revista do social para as tias comentarem os vestidos das amigas que nunca viram, ainda se fosse um jornal desportivo para os tios a meio duma cerveja discutirem a razão do Sporting não ter ganho o campeonato mais uma vez. Os hábitos de leitura têm relegado os mais habituais a uma sensação de solidão porque ler, ao que parece, também cansa!

Mas esse cansaço pode mudar se um dia nos lembrarmos de carregar um livro na mochila da praia: Um dia de sol onde podemos nadar, mergulhar, jogar à bola, raquetes de praia, esculpir um castelo na areia e até demolhar o corpo bem por baixo dos raios ultravioleta. E no fim desse dia, sair da praia, sentar na esplanada, pedir uma caipirinha, duas ou três, e poder ler um poema “Na sensação de estar polindo as minhas unhas, súbita sensação inexplicável de ternura…”

Os hábitos parecem atitudes de rotina e o nosso maior hábito é não ler ou ler pouquinho. Como no dia em que nos apaixonámos pela primeira vez, lembram-se do trabalho que deu conquistar o coração de quem gostámos, o tempo que nos tirou a pensar como haveríamos de dizer o quão amávamos. E que poetas que fomos todos nessa altura, quando pensávamos nas palavras que nos saiam da alma assim com rapidez alucinante. Um livro também é assim, uma paixão, um amor imenso que mal começamos a namorar tem sempre uma ideia maravilhosa que se encaixa, que fica embutida e nos consome de prazer, de espanto. Quantas vezes já namorei com páginas de livros e lhes passava a língua nas margens para namorar mais ainda… É um hábito poligâmico, apaixonante e deliciosamente idiota! Quando fizerem as mochilas para a praia lembrem-se: Juntem um Livro e bom Engate…

Texto: Rui de Noronha Ozorio