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” SOU DA GERAÇÃO ‘VOU QUEIXAR-ME PARA QUÊ?’ HÁ ALGUÉM BEM PIOR DO QUE EU NA TV.
QUE PARVA QUE EU SOU!

SOU DA GERAÇÃO ‘EU JÁ NÃO POSSO MAIS!’ QUE ESTA SITUAÇÃO DURA HÁ TEMPO DEMAIS
E PARVA NÃO SOU! “

REZAM OS NÚMEROS QUE A 15 DE SETEMBRO DE 2012 MAIS DE 600 MIL PESSOAS FORAM PARA A RUA COMO PARTE DA MANIFESTAÇÃO QUE SE LIXE A TROIKA! QUEREMOS AS NOSSAS VIDAS!. NO EVENTO, ORIGINALMENTE CRIADO NO FACEBOOK, CERCA DE 60 MIL PESSOAS CONFIRMARAM A SUA PRESENÇA NA MANIFESTAÇÃO E PERTO DE 25 MIL ASSINALARAM QUE TALVEZ SAÍSSEM À RUA. A TÍTULO DE CURIOSIDADE, 36 MIL PESSOAS RECUSARAM O CONVITE. A MANIFESTAÇÃO DE 15 DE SETEMBRO, ENTRE OUTRAS COISAS MAIS PREMENTES, VEIO REFORÇAR A IMPORTÂNCIA DAS REDES SOCIAIS, NESTE CASO, NA ESFERA DA INTERVENÇÃO SOCIAL.

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STRP Mutants, Bart Hess

Viral, por definição, remete para o universo léxico das doenças contagiosas que se espalham, muitas vezes, sem dó nem discriminação. Coloquialmente e em certos contextos cibernéticos, viral é também utlizado para se referir a um vídeo, ou notícia, que ganha a atenção gradualmente de mais utilizadores e se torna uma sensação momentânea, ou em alguns casos um marco cultural.

Exemplos disto são o cantor coreano Psy e a sua incontornável música Gangnam Style, ou o recente furor causado pela música Harlem Shake, do dj americano Baauer, que alcançou o top de vendas dos Estados Unidos da América. Ou mesmo o caso de Inês Brasil, cujo vídeo da sua quinta candidatura ao Big Brother Brasil, acumulou mais de 1 milhão de visualizações até agora e a tornou numa espécie de coqueluche da imprensa e cultura brasileira.

Concisamente (e redundantemente, talvez), a Internet tornou-se a principal criadora e ditadora de cultura do nosso mundo. Por isso, não é de estranhar que o seu impacto se verifique também a um nível interventivo. Ultimamente, são vários os casos que inundam o Facebook, através da opção de partilha, de relatos ou acontecimentos capturados amadoramente, que espelham um novo espírito reivindicativo. Do vídeo do momento em que protestantes interromperam o discurso do Primeiro-ministro, no Parlamento, com Grândola Vila Morena (o vídeo partilhado pelo canal EsquerdaNet conta com perto de 300 mil visualizações), à intervenção da atriz Joana Manuel na Conferência Nacional em Defesa de um Portugal Soberano e Desenvolvido (quase 200 mil visualizações, no canal apeloPortugal), ou até mesmo ao infeliz caso do jovem que foi expulso e agredido por agentes da polícia, num comboio da CP, por não ter um título de viagem válido para o cão que transportava (o site da CP foi, posteriormente, inundado de queixas e de petições que pediam o despedimento do revisor envolvido), cada vez existem mais casos que, graças às redes sociais, ganham um maior relevo na agenda pública.

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A QUESTÃO QUE SE LEVANTA É SE A OPINIÃO POPULAR SERÁ DORAVANTE DITADA POR UM MODO PASSIVO DE PARTILHA DE DISCURSOS E CONFRONTOS TRAVADOS POR AQUELES QUE NÃO SE LIMITAM A ASSISTIR.

O PROBLEMA QUE SE COLOCA É A INTENCIONALIDADE DAQUELES QUE PARTICIPAM NAS DIFERENTES MANIFESTAÇÕES (QUE POR SUA VEZ SE VEEM TRANSFORMADAS DE CONSÍLIOS DE INTERVENÇÃO EM OPORTUNIDADES FOTOGRÁFICAS).

O DILEMA QUE SURGE É ENTRE INTERAGIR OU ASSISTIR. O FUTURO QUE SE DESENHA PARECE SER CONSTRUÍDO ENTRE O PARTICIPAR E O PARTILHAR E ESPERAR QUE ENTRETANTO SEJA ABRIL.

A internet cria assim uma plataforma para uma nova espécie de intervencionismo passivo, que vê o cidadão satisfazer virtualmente os seus deveres com o pressionar de uma tecla. O ato de partilhar torna-se um ato reivindicativo das nossas opiniões e um espelho das nossas crenças e opiniões sobre os principais tópicos debatidos.

Isto acontece, porque vivemos numa sociedade narcisista (segundos os parâmetros de Slavoj Zizek), onde as nossas ações só são importantes na medida em que nos promovem, enquanto indivíduos de valor. Nesse aspeto, o fenómeno das redes sociais é um exemplo único de como o virtual se tornou um retrato da nossa realidade idealizada. O nosso perfil do Facebook não é só um ponto de encontro, mas uma exposição das nossas conquistas e das nossas qualidades – reais e inventadas. Assim, mais importante do que o ato de partilhar o discurso da atriz Joana Manuel sobre o que significa ser jovem hoje em dia é o ato de mostrar aos outros que somos sensíveis àquele determinado assunto.

Aquando da recente manifestação, em torno do hino revolucionário de 74, o encenador portuense Ricardo Alves escreveu no seu Facebook que, e estou a parafrasear, viu muitos braços no ar durante a manifestação, mas a tirar fotos. Este comentário releva o argumento anterior e, por sua vez, o problema da sociedade viral em que vivemos, pois demonstra como o ato performativo de mostrar ao outros que estamos a cumprir o nosso papel de cidadão é tão ou mais importante que o próprio conteúdo do evento.

Texto: Tiago Moura