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Se com conversas de café se gastassem os tópicos, o tema a que se refere este texto, seria um dos primeiros a estar indubitável e exaustivamente usado. Pensamento dedicado a almas atormentadas pelo presente e pelo futuro. Aos meus queridos amigos que lutam por um ensino melhor, mais sustentável e que, de facto, seja criado e desenvolvido por Idiotas e não idiotas. Já Pessoa que era Pessoa fazia fluir as suas ideias sentado numa mesa de café. Onde os mundos confluem e as ideias embatem e emergem. A indiferença, a revolta, o sentimento de vitória e de satisfação que assolam o interior dos jovens estudantes afigura-se deveras familiar aos meus olhos e soa-me repetido aos ouvidos. É na mesa de café que ouço e partilho das confissões dos meus semelhantes, que vivem no limiar do ‘saber’ e do ‘saber-fazer’. De facto, será que as escolas estão a preparar os estudantes para carreiras (e vidas) de sucesso?

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Bem, uma das preocupações que me parece relevante assinalar é que neste pressuposto há várias hipóteses a serem escrutinadas. Será que as escolas estão, realmente, a preparar os estudantes para a vida profissional? Estarão as escolas a ter um papel ativo e pragmático na preparação dos estudantes para o mercado de trabalho? Os responsáveis pela comunicação, interpretação e aplicação de conhecimento a estes estudantes serão manifestamente experientes na aplicação de conhecimento? Muito importante referente ao conceito de “carreiras de sucesso”: o que define o termo “sucesso”? Quais são as linhas matrizes que definem este estado de graça? Não será a vida social e cultural, os princípios e os valores que os rodeiam, as noções de moralidade e ética são indicadores e importantes fatores de definição da preparação destas pessoas?

Um tema de uma tão grande complexidade e de contornos frágeis que, apenas pela formulação de uma questão se denotam lacunas na coerência do seu desenvolvimento. Posto isto, dividirei a reflexão que decorre deste problema em duas grandes preocupações, entenda-se: como problemas a analisar. Ainda que me pareça de extrema importância observar e analisar estes dois pontos de vista, a problemática de como integrar a amplitude de noções intangíveis e subjetivas na mente e no coração dos estudantes de hoje, parece-me revelar-se como sendo a maior dificuldade das entidades escolares. O planeamento estratégico e aplicado de conhecimentos práticos e teóricos é delineado por pessoas competentes, e dotadas de uma visão futura do desenrolar dos conhecimentos necessários à prática da profissão em questão. Mas, ainda assim, até que ponto será visionária e eficaz o planeamento dos planos escolares por parte de ilustres académicos e investigadores, autores e pensadores com uma imensidão indescritível de bagagem intelectual, mas sem qualquer experiência prática e específica no mercado de trabalho? Até que ponto será frutífera uma aula deste calibre, com alguém que compreende a teoria mas tem dificuldade em perceber a aplicação destes conceitos na rotina cheia de dissabores, triunfos e quedas, numa organização? Do meu ponto de vista, é necessário conhecer a aplicabilidade dos conhecimentos teóricos na prática, é imperial compreender a tradução que é necessária dos casos que são analisados nos tempos letivos e o que acontece no dia-a-dia em qualquer organização. Assim, como primeiro ponto, questiono o planeamento e o leccionamento dos conteúdos escolares por parte de académicos sem experiência prática da aplicação do conhecimento que transmite. Como segunda preocupação, abordo os meandros da subjetividade das inter-relações, dos princípios de integridade e ética, do fosso que não será tão abismal entre o Bem e o Mal, da noção de competência, de eficácia, de sucesso. Quem define como são transmitidos estes conceitos?

O facto de as entidades escolares serem compostos por um complexo dinâmico de relações e hierarquias sociais e humanas resulta numa troca inconstante e parcial de conhecimentos de termos que compõem os pilares da nossa essência, da nossa postura e da nossa perspetiva presente e futura. Para além de ser uma relação imaterial de inconstância pessoal e mutável é necessário compreender em que medida são transmitidos e demonstrados estes conceitos ou, se é que o são de todo. Porque, para além da apreensão de noções teórico práticas, os estudantes devem ser confrontados com a realidade humana e interpessoal das organizações. A manipulação da imprevisibilidade de atuação dos recursos humanos de uma entidade organizacional é decisiva para a aplicação da teoria e da prática que são transmitidas nas escolas. Por aqui, nas teias desta questão, parece-me relevante que a noção de “carreiras de sucesso” deva ser analisada pondo em causa o conceito de sucesso. Devemos perceber de que forma cada estudante compreende e projeta a ideia de ‘sucesso’ para conseguir trabalhar a sua postura nessa direção. Portanto, em forma de questão coloco a minha segunda preocupação: de que formas são transmitidas e comunicadas aos estudantes noções subjetivas, que roçam a essencialidade do humano social e cultural, para que os conhecimentos teóricos e práticos sejam aplicados da melhor forma?

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Este texto não serve como demarcação de uma postura, como afirmação de um erro que é cometido ou celebração de um sucesso organizacional. Serve como partilha de preocupações de alguém que é estudante e que observa estas lacunas nos sistemas de ensino. As conversas de café são produtivas pela partilha de pensamentos, de posturas e de questões que nos atormentam. A influência das instituições de ensino na criação de carreiras de sucesso é tema de debate passado, presente e futuro. Não me parece relevante a enumeração de erros que mancham o percurso das escolas e dos professores, não me parece essencial que apenas se apontem as virtudes que elevam as cátedras antigas e recentes. Na minha perspetiva, o questionamento das dinâmicas atuais, a contextualização e adaptabilidade dos conhecimentos, a análise das fraquezas para que possam tornar-se virtudes é, per si, mais frutífera. Partilho assim a minha opinião sobre este tema. Não em forma de afirmação, mas em forma de dúvida. De várias dúvidas. As entidades escolares não devem estagnar, devem imbuir-se nos meandros da atualidade em que se desenvolvem. Por isso, o questionamento é uma benesse. O melhoramento das academias é um dever das entidades governamentais, regulamentares, políticas e sociais. Mas, e acima de tudo, cabe-nos a nós compreender o que deve ser melhorado e trabalhar no sentido de potencializar algo que é essencial à nossa existência: o conhecimento.

Texto: Ana Margarida Meira