Apesar de ainda faltar uma definição concreta, seguramente, o que se faz neste canal está longe do significado clássico de “televisão”. Da mesma forma, quem só vê a TVI pode também afirmar com confiança que “não vê televisão”. Na verdade não é tanto para quem “não gosta de televisão”, a TVI, é mais um canal para quem nutre um ódio recalcado por todo e qualquer esforço humano alguma vez empregue em tornar a televisão num meio artístico cultural. Esta sim é a audiência da TVI, as pessoas que retiram prazer em ver anos e anos de esforço artístico e pesquisa tecnológica desperdiçados.

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“Falam, falam falam e não dizem nada!”, Marco Big Brother I

Não critico a qualidade dos profissionais que lá trabalham, muito pelo contrário! Para mim é um mistério como é que aquele pessoal consegue manter o sangue frio no meio da selvajaria louca de tal programação… A sério, se as televisões tivessem doenças seria preciso reservar o Magalhães de Lemos e uma equipa de peritos estrangeiros para conseguir apurar a quantidade de patologias psicossociais presentes em cada programa.

É notável como estes profissionais têm conseguido estoicamente manter condições mentais para todos os dias assegurar a qualidade técnica necessária para o gerir toda esta insanidade. Pergunto-me se a longo prazo a exposição à televisão portuguesa não trará algum tipo de mazela permanente lá no fundo de um córtex qualquer. Eu certamente já estaria a suprimir pesadelos com rancho folclórico de Vilariça de Carrazedas ou a ouvir a voz da casa dos segredos de cada vez que estou sozinha na casa de banho.
E achávamos que o Manuel Subtil tinha razões para se queixar… A TVI faz a RTP parecer um campo de férias para escuteiros.

Todos tivemos aquele amigo que exacerbava sempre as brincadeiras até ao ponto em que começava a ser rebuscado de mais para ser divertido… A TVI é esse amigo mas com dinheiro ilimitado. É como se a meio de um jogo de póquer onde ele acaba de apostar a virgindade da irmã e espera que os outros cubram, se tenha levantado e dito: “Vão se lixar seus maricas, vou fundar uma televisão!

Assim se explica que tudo o que existia de minimamente engraçado está perdido quando a TVI entra na jogada. Concursos, reality shows, telenovelas, até o José Alberto Carvalho eles conseguiram escangalhar.

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Horário nobre da TVI

Não vou sequer falar da casa dos segredos, não por ser demasiado óbvio mas sim porque não disponho de cafeína ou staff suficientes para me apoiarem em tal empreitada. Já lá vão 15 anos desde o primeiro Big Brother. Um pequeno pontapé para o Marco, um estaladão na cara da Humanidade. 15 anos de BigBrothers, Quintas das Celebridades e Casas dos Segredos, é mais que a 1ª e 2ªs Grandes Guerras juntas. Espero ao menos que isto tenha de alguma forma contribuído para avanços significativos no campo da psicologia e neurociências. Quero ver essas teses pessoal! Tivesse o Hitler uma oportunidade destas…
Para ser justa a TVI não é a única culpada. Ela não inventou este formato, um breve zapping pelos canais base da tv cabo e ela tem um sólido e irrevogável álibi. No fundo a TVI só fez o que todas as outras emissoras estavam a pensar mas não tinham coragem. E a iniciativa de um é o copianço dos outros.

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Manuel Luis Goucha, recordista de audiências nas manhãs da TV portuguesa.

Mas pronto, entretenimento é entretenimento e desde o Big Show SIC que parece ter-se estabelecido a convenção tácita de que se é para entreter “vale tudo”.
Uma coisa não desculpo, o telejornal.. Como é possível terem conseguido dar cabo do telejornal? O mais flagrante é mesmo o “Jornal das 8” da TVI (especialmente ao domingo) que para mim epitomíza todo este novo espírito televisivo. É certo que o Telejornal da RTP, ruído de fundo da hora de jantar nacional já não estava nas melhores condições quando em 1992 apareceu a SIC, mas partir daí a o formato informativo directo, conciso e disfarçadamente imparcial, até então em vigor foi oficialmente deitado pela janela.

Cada vez mais longo, o telejornal, passa a ser um carrossel de eventos desconexos ora inclinados ligeiramente à esquerda ora ligeiramente à direita. A TVI aparece um ano depois mas é em 2005 que saí verdadeiramente do armário quando se estabelece como líder de audiências. Esta marca a altura em a que a diferença entre o Telejornal e o Big Show SIC começa progressivamente a esvanecer. Linguagem coloquial, convidados “especiais”, crítica literária e cinematográfica, show de fofocas. Não é preciso sequer ter o som ligado para perceber que nos estão a tentar vender algo, quer sejam ideias, programas, modas, partidos ou os livros do Marcelo.

Vivo numa relação de amor/ódio com a televisão portuguesa que tanto me faz rir como chorar mas raramente pelos bons motivos. Se há coisas em que copiar o estrangeiro é bom esta não é certamente uma delas. (Onde se lê estrangeiro deve-se substituir por Estados Unidos da América).

Texto: Mariana Vaz