‘Os direitos humanos passaram a ser uma espécie de moeda política universal’

dizem-nos os autores Levy e Sznaider. Os direitos humanos são um fenómeno global, são um princípio da legitimidade política. A criação de um entendimento global de uma memória coletiva de injustiças, violações, transcendências e sufrágios passados, conduz-nos a um consenso comum de significado: a profanação dos direitos humanos é um ultraje. Não passa despercebida. Pode passar impune, mas não passa despercebida. Se as vítimas do presente não encontram salvação hoje, as vítimas do futuro poderão encontrar salvação no passado. Criámos ícones. Aylan. A criação de um ícone traduz a revolta, a falta de poder e impotência, de atrocidades que devem ser elevadas ao altar para servir de exemplo. Para que possamos salvar as vítimas de amanhã com o paradigma de ontem. Pelo menos na nossa consciência. Se é só isso que podemos fazer, é isso que fazemos.

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A comunicação social fala por nós, constrói por nós, chega ao cerne da questão e do coração. Mostra-nos uma cara. A cara da desgraça, da miséria, do fim da linha em que nos colocamos. Se existe um castigo, ainda que cósmico, será a nossa opinião, a nossa adoração por uma cara, por um corpo que representa o mal e o bem. Representa a podridão da essência humana. É isso que nos dá voltas ao estômago. A realidade do mal. O desespero. O amor e o ódio em balança. A paz e a Guerra. Todos sabemos o que é certo e o que é errado. Não sabemos? Sabemos.

Mas o que é certo e errado é subjetivo, é fluído, é uma metamorfose. Adapta-se e renova-se. O que se faz é criar proximidade humana. A comunicação social confere e atribui o estatuto de desgraça visceral a estes acontecimentos. Cenas de brutalidade indescritíveis e testemunhos que nos arruínam as emoções. Partilhamos a revolta e a dor, mobilizamos mundos e fundos por uma cara. Por uma cara tão próxima da humanidade, que é querida a todos. O punho de ferro numa luva de cetim.

A desesperança de um deus que se esqueceu de nós. O desaire de um lugar e de tantas pessoas que foram esquecidas por ele. É assim? Deus é um ícone. Que nós amamos e odiamos. Pelo qual fazemos todas as coisas, aguentamos todas as dores e criamos todas as virtudes. Não aguentamos nada. Quando vem a parte da dor é a ele que culpamos. Coitado. Tem as costas largas. Não arranjamos explicação. Arranjamos uma cara a quem adorar em vez de Deus. Aylan. Alguém a quem pomos flores e dedicamos sussurros íntimos de reza. Deus é Deus. Não é conveniência. Não se esquece de alguém e de lugares quando quer. Não é suposto ensinar-nos alguma coisa? É assim que ele ensina. Agora decidam. Quando o mal vem à Terra nas suas formas mais horripilantes é porque ele se esqueceu de nós, quando o bem vem à Terra é “Graças a Deus”.

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Escolham assim: Deus deu-nos Aylan porque estava distraído e se esqueceu de o salvar ou nós é que o matamos? Aylan é o presente que vai ser tornado memória coletiva de um futuro que precisa de ser ensinado, domado e controlado. E isso depende de nós. Nós é que o matamos ou salvamos. Nestes momentos, “(…) não é de admirar que esse Deus esteja morto, deixando atrás de si um mundo perfeitamente livre e aleatório e, a uma divindade cega chamada Acaso, a necessidade de controlar os acontecimentos.”, como nos deixou Nietzsche. Nós é que o matamos. Ou salvaremos.

Texto: Ana Meira