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Pablo Osvaldo chegou ao FC Porto com aparato hollywoodesco, diabolizado pela reputação de bad boy. O ítalo-argentino, fanático dos Rolling Stones, faz parte de um reduzido leque de jogadores que se diferencia da maioria pelo lado indomável da sua personalidade, refletindo-se isso nas referências musicais

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O futebolista é alvo de rótulos fáceis, observações imediatas, num estereótipo que atravessa o mundo, depreciativo quanto à sua maturidade e falta de propensão para valiosas ou, no mínimo, diferenciadoras escolhas musicais. Naquela imensidão de lugares comuns, há quem se distinga, se anuncie como um homem de rock’n’roll, estimulado por um ritmo bárbaro. Osvaldo, o novo reforço do FC Porto, tem essa pinta, emana essa chama e não tem qualquer pejo em camuflar o personagem rebelde que carrega, na muito básica tribo da bola. O italo-argentino que o FC Porto contratou tem chamado para si muitas atenções, discorrendo-se em catadupa histórias do seu passado, do seu instinto problemático, do seu grito de moda à Johnny Depp e do seu distinto raio musical, obstinado pelos Rolling Stones, apoiando-se em Wild Horses para se apresentar («I have my freedom, but i don’t have much time».

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Osvaldo, o reforço do FC Porto

Sendo um ponta-de-lança temível, é um jogador diferente, louvado pelos golos no Espanhol, Roma e Boca Juniors mas perseguido pelo passado tempestuoso que lhe roubou a continuidade e que o expôs e sujeitou a ataques ferozes. Aos 29 anos, num FC Porto necessariamente pressionado, Osvaldo está obrigado a ser feliz e encantar a plateia que dele muito espera. E isso não passa, claro, por conter o seu espírito indomável ou aprisionar-se em regras de etiqueta do clube. Há futebolistas que nascem talhados para romperem padrões e triunfarem com o seu encanto próprio, indiferentes a tudo o que os rodeia.

Mais sujeitos à crítica, sofrendo na pele com apreciações dilacerantes: «lá vai ele numa corrida para o abismo» ou lendo algo como «contratação completamente falhada», são jogadores habitualmente com sete vidas e amor próprio suficiente para se vingarem no campo de todos os detratores. Osvaldo, ponta-de-lança explosivo, rebelde, acrobático e goleador, já confessou que é tão somente um ator do espetáculo, não mais que isso. «Gosto de jogar e basta, desligo-me quando acaba o jogo. Não ligo muito a futebol, prefiro ocupar o tempo estudando guitarra e piano».

Frase sublime, lapidar sobre as convicções de um atacante, que ama os Stones, ele próprio é Dani Stone nas redes sociais, e se alenta ou recolhe ouvindo Pink Floyd, degustando o seminal The Wall, Doors, vidrando com o lado lunático de Jim Morrison, e AC/DC, fervendo com a loucura de Angus Young. O rock alimenta-lhe o temperamento, inspira-o, descontrola-o, sendo irascível quando se zanga. Adversários e até mesmo companheiros, todos apalpam depressa as reações explosivas de Osvaldo. Já se virou ao português José Fonte (Southampton) e aos compatriotas, Lamella (Roma) e Iccardi (Inter), saindo, por norma, internamente chamuscado das quezílias. Osvaldo tem colhido tempestades por onde tem passado, embora atraia muitas atenções e admiração, até porque não se poupa em excentricidades. Em Itália andou anos com um Mini Cooper pincelado com as cores da alvi-celeste (Seleção da Argentina) e com o Deus Maradona estampado numa das portas, até o Roma o privar desse prazer pela aproximação cromática do bólide ao rival da cidade, a Lazio.

Maneiras de viver, de surpreender, enlouquecer, vestindo um estilo invulgar, preenchido de colares, tatuagens e camisas com tributos aos grupos favoritos. Apesar de idolatrar os Stones, ser espetador de inúmeros concertos, saltando aqui e ali para o palco com bandas amigas, Osvaldo transporta a frustração de nunca ter visto a banda de Mick Jagger e Keith Richards ao vivo. Real desconsolo, até porque já teve a ousadia de pedir para sair mais cedo, a 10 minutos do fim, de um jogo da Liga Italiana entre o Roma-Pescara para apanhar um voo privado até Londres onde contava ver os lendários autores de ‘Brown Sugar’, ‘(I can’t get no) Satisfaction’ ou ‘Sympathy for the Devil’. Falhou o objetivo tramado por um controlo anti-doping. Mas, agora, no FC Porto, além de centrado em voltar a ser uma máquina de golos, está de olho, seguramente, na próxima digressão dos Stones, suspirando pela cortesia de Pinto da Costa. Chegou envolto em estrondo e transcendência e já vai ensaiando os primeiros acordes na Invicta.

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Xabi Alonso, El Pais

Admirando craques com onda musical, enamorados de bandas lendárias ou fervorosos das novas tendências. Ficam sete histórias, sem contar com o amor eterno de Garricha por Elza Soares, de George Best pelos Beatles ou de Eric Cantona, por Jim Morrison, Rimbaud e Mickey Rourke.

Stone Roses no top de Carvalho

Ricardo Carvalho – Quando José Mourinho trilhava o seu caminho de glórias no Chelsea, os jogadores da equipa londrina foram desafiados a partilhar as suas músicas prediletas. Sem surpresa, o mau gosto imperou e o técnico de Setúbal foi dos que mais ajudou no descalabro, socorrendo-se de um qualquer tema de Brian Adams. No meio de um horroroso desfile de escolhas, uma voz iluminada introduziu para registo na lista ‘Fools Gold’ dos Stone Roses. A escolha pertenceu a Ricardo Carvalho. Desarmante, transparente, refrescante.

Tomado pela vaga psicadélica

Xabi Alonso – O médio basco do Bayern Munique é aquele, entre os craques mais destacados do planeta, que melhor aproveita as redes sociais, no caso o twitter, para espalhar o seu grau de cultura musical e também cinéfila. Atualizações constantes reveladoras de um gosto apurado pelas correntes psicadélica, shoegazer e alternativa. É um ávido consumidor de música, partilhando regularmente o seu apreço por bandas como Spirtualized, My Bloody Valentine, Brian Jonestown Massacre, Flaming Lips ou Wilco, deixando impressões e recomendações de álbuns. Nos antípodas das preferências de colegas de balneário, Xabi Alonso (Real Sociedad, Liverpool, Real Madrid e Bayern Munique) deixa ainda boas sugestões no que respeita a séries: Mad Men, Wire ou True Detective. O mesmo se reporta a filmes, tendo relatado a sua experiência memorável com Driver e a sua banda sonora. Xabi Alonso é um médio de gabarito que ganhou tudo com a seleção espanhola, deixando no campo dedicação exemplar e compromisso com os adeptos e com o espírito de cada clube representado. Não esquece o Liverpool, cantando sem reservas ‘You’ll never walk alone’, o emblemático hino dos reds.

Novo dj na cena londrina

Mendieta – O antigo médio do Valência, Barcelona e Lazio virou dj no final da sua carreira futebolística. Acabou em Inglaterra no Middlesbrough e escolheu Londres para se iniciar ao comando dos pratos. O espanhol já provou a grandeza de uma presença no aclamado festival de Benicassim, passando a sua música para milhares de pessoas. Colecionador de vinil desde sempre, Gaizka Mendieta soltou a fera musical quando deixou de jogar. Cada set seu reúne o melhor do soul e do rock alternativo. «O mais perfeito vai estar entre Lou Reed e Velvet Underground, alguma música da Motown ou então algo saído dos My Bloody Valentine», disse, numa entrevista, em que partilhou as suas referências. Longe vão os tempos de grande rotação nos relvados, de golos assombrosos, Mendieta faz, agora, disparar a emoção de quem o segue pela noite dentro e conta os dias para figurar num cartaz de Lollapalooza. «Seria como jogar a final de um Mundial no Maracaná».

O blog de Baines

Leighton Baines – O visual mod do defesa-esquerdo do Everton deixa a sugestão no ar e a curiosidade desemboca num blog que o jogador apresenta no site do clube, onde promove os álbuns do momento. Internacional mais de três dezenas de vezes pela seleção inglesa, Baines, ostentando patilhas vistosas e penteado ao estilo dos irmãos Gallagher, é um apreciador voraz de música, concebendo listas e novidades da semana ou mês. Também já anunciou que fecha o ciclo no futebol quando encerrar a carreira, preferindo dedicar-se à guitarra, aos festivais, e às incursões escritas legitimadas pela sua melomania. Leonard Cohen, Bob Dylan, Dr. John, Black Keys ou Tame Impala são artistas que soam habitualmente na sua aparelhagem.

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Stuart Pearce

Íntimo dos Stranglers

Stuart Pearce – Conhecido como ‘Psycho’ por um temperamento escaldante e um semblante muitas vezes furioso, Stuart Pearce é o futebolista punk desta coleção. O extraordinário defesa-esquerdo, que brilhou anos a fio na seleção inglesa e no Nottingham Forest, onde ainda foi treinado pelo mítico Brian Clough, constitui o fiel retrato de alguém que cresceu dentro da classe operária e se impôs no campo com um caráter inabalável, apaixonado e patriótico. Eletricista, Stuart abraçou o punk como linguagem de uma vida, jogando com uma raça ímpar. ‘Anarchy in UK’ dos Sex Pistols é a música que debitaria a qualquer hora numa rádio, sendo um fã incondicional dos Stranglers, de quem sempre foi íntimo, merecendo homenagem da banda celebrizada por ‘Golden Brown’ no lançamento da própria editora – Psycho. Apesar da longuíssima carreira, da presença em fases finais de grandes competições de seleções, Stuar Pearce nunca perdeu oportunidade de acompanhar o movimento punk no seu auge em Inglaterra. Assistiu a mais de 300 concertos, aparecendo numa foto do interior do álbum dos Lurkers ‘God’s Lonely Men’. Stuart Pearce prossegue no futebol como treinador, longe da fama, do dinheiro, do mediatismo.

Pela mão de John Peel

Pat Nevin – Jogador escocês que defendeu as cores do Chelsea e Everton nas décadas de 80 e 90 foi cúmplice no desabrochar da efervescência de Madchester, impulsionada por Joy Division, New Order e Happy Mondays. Ainda novo, nunca se sentiu verdadeiramente tentado pelo futebol e foi a música que imperou como grande paixão. A carreira de futebolista foi sempre aliada a uma insaciável curiosidade musical. Conviveu de perto com a lendária figura da rádio, John Peel, e dele se tornou grande amigo. Atrevido, empolgado pela sonoridade da época, assinou uma entrevista a Peel para o jornal oficial do Chelsea. Por ação desta figura marcante e aproveitando o facto de viver em Londres, Nevin começou a experimentar as cabines em alguns bares e eventos. Já em 2015, após período de interregno, foi desafiado a recuperar o encanto como dj, fazendo um set antes de uma atuação dos Happy Mondays, de Shaun Ryder, investindo em temas de Pains of Being Pure at Heart, Camera Obscura, The Fall, Belle and Sebastian ou New Order.

Sympathy for the Devil

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O guarda redes argentino Mono Burgos

Mono Burgos – O antigo guarda-redes do Atlético Madrid, hoje adjunto de Simeone no clube colchonero e extensão perfeita do seu nervo e paixão, sempre foi um espetáculo à parte em campo, um rock star no palco, impressionando pelo seu longo cabelo desgrenhado a cobrir a cara e um boné vermelha. German Burgos ‘Mono’ saiu de Argentina para fazer carreira em Espanha e foi na Europa que exibiu o seu estilo desconcertante e inconfundível, da farta cabeleira e equipamentos altamente coloridos. Fenomenal na baliza com um descaramento felino em jogadas de um para um contra os melhores avançados, assinou momento impactante ao travar um penalty de Figo com a cara. Numa posição pródiga a excentricidades e proezas infinitas, da mesma escola de loucos como Gatti, Higuita, Jorge Campos ou Chilavert, Burgos reclamou para si um protagonismo roqueiro, surgindo como vocalista ainda nos tempos em que atuava no Ferro Carril Oeste na sua Argentina. A febre pela música está-lhe no sangue, tendo retomado carreira com uma banda chamada Garb, onde junta influências de Guns’n’Roses a Rolling Stones. É vocalista, letrista e um autêntico animal de palco, imitando os movimentos pélvicos de Mick Jagger, não obstante o seu amor no grupo seja o grandioso Keith Richards, a quem rouba apontamentos na forma de vestir. Extravagante, polémico, feroz, já como treinador-adjunto no Atlético de Madrid, ficou célebre a sua altercação com Mourinho. «Eu não sou o Tito, eu arranco-te essa cabeça fora», disparou na direção do português durante um Atlético-Real Madrid. Com boa disposição também venceu um tumor nos testículos em 2003. «Tenho jogo no fim-de-semana, vamos tratar da operação na segunda-feira».