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Cartas em cima da mesa: eu nunca fui ao Milhões de Festa. Ao contrário da maior parte das pessoas da minha idade que gostam de ouvir música, ver concertos, beber uns copos ao sol e relaxar com os amigos, por um motivo ou por outro, o meu álbum de verão nunca contou com fotografias onde estou casualmente com a minha squad na famosa piscina, exibindo ares de quem está genuinamente a curtir a vida. Como a sétima edição do festival em Barcelos começou ontem, fui recolher informações sobre o triângulo mais badalado do país que, ano após ano, vai ganhando seguidores, qual seita pouco secreta, e transformando o Porto, lugar de onde vos escrevo, numa cidade fantasma durante uns quantos dias.
Acionei os poderes mágicos das redes sociais, angariei algumas alminhas que estão familiarizadas com o andamento da coisa e aproveitei para fazer perguntas. Entre amigos, conhecidos e desconhecidos que partilham comigo o espaço virtual, pedi dicas, recolhi opiniões, perguntei aquilo que me apeteceu e trago um pouco da sabedoria que partilharam comigo.

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O Bruno e a sua squad. Foto de Jorge Morello.

Milhões de Festa 2016

A edição deste ano está a decorrer desde ontem e promete abalar as estruturas da região até domingo, dia 24. A listagem dos artistas mais esperados que vai chegando dos meus interlocutores é diversa, embora alguns pareçam repetir-se e ganhar mais destaque: é o caso de Goat. El Guincho, Dan Deacon e Goth Money Records, a título de exemplo, sem esquecer nomes nacionais como 10 000 Russos, Surma ou Nídia Minaj.
Quando se trata de festivais de verão, acontece muitas vezes aquele fenómeno estranho que é toda a gente se tornar, de repente, num especialista do tema, mostrar conhecimento enciclopédico da programação, proferir sentenças absolutas acerca de qual será o concerto a não perder. Com o Milhões parece acontecer exatamente o contrário: ninguém parece partir com o trabalho de casa já feito.
As pessoas com quem falei mostraram-se expectantes para ver determinados concertos mas também entusiasmadas com aquilo que ainda não conhecem, como a Luísa, que depois de enumerar o que mais lhe interessa no cartaz, remata “provavelmente irei ter várias agradáveis surpresas pelo festival fora como é costume”, ou o Paulo, que sintetiza a questão de forma muito simples “O bom do Milhões é ser surpreendido. Não conheço nunca a maioria do cartaz”. É também o caso do Marcos que confessa que foi à descoberta e do Hugo que, nesse mesmo espírito, marca presença este ano pela primeira vez.

Que não se pense, no entanto, que a música não é importante para aqueles que vão ao festival: quem lá chega, chega com vontade de expandir os horizontes musicais e parte levando mais do que trazia consigo. Nas palavras do Zé, “ o Milhões de Festa prima por ter um cartaz onde a música é o foco principal, eclético o quanto baste para agradar a todos”. Em grande parte, é esta “curadoria musical variada e nova” que continua a marcar pontos junto do público, conjugando estilos distintos e festa para todos os gostos.
Apanhados de surpresa ou repletos de expectativas, o certo é que os entrevistados assistiram, no Milhões, a concertos que os marcaram e aos quais tecem os maiores elogios, como os de Alt J, Boogarins, Bob Log III, Mykki Blanco e The Bug, entre outros. Este ano, além da habitual animação nos palcos Milhões e Taina, os festejos estão também espalhados pelas ruas de Barcelos com as Arruadas Merrel a decorrer nos dias 22, 23 e 24.

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À esquerda, o Alex cheio de pinta no Milhões.

Tips for getting tipsy

Não sei quanto a vocês mas quando eu penso em ir a um festival de verão, há questões que me passam pela cabeça, nomeadamente: “Posso acampar lá ou vou arrepender-me?”, “É minimamente seguro?”, “Quais são os melhores spots para vegetar?”, “Vou apanhar bebedeiras sem pagar o meu peso em ouro?”, “Vou poder bater com o pézinho no chão até o sol raiar?”, ou ainda “É um sítio fixe para apanhar a moca ou vou bater mal garantidamente?”. Procurei respostas, trago verdades sobre estes temas que, parecendo menores, podem fazer ou destruir as nossas férias.

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O Paulo a relaxar na piscina mais famosa do país.

Naquilo que diz respeito ao alojamento, aconselharam-me hospedagem no Bagoeira se quisesse descansar numa cama e curtir uma calma após dias e noites de diversão intensa. No entanto, aqueles que, como eu, gostam de enterrar a cara no saco-cama e saltar da tenda com os pés na terra quando o sol chama, garantiram-me que o campismo é altamente recomendável, super seguro e reúne todas as condições para o pessoal dormir e acordar feliz.

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O Marcos, à direita, dançando um pouco.

O lugar mais chill das redondezas parece ser mesmo a piscina: a resposta pode não ser muito surpreendente mas é unânime. Pelo que averiguei, não há dia no Milhões sem uma passagem pela piscina, seja para dar uns mergulhos, apanhar sol ou estender o corpo à sombra e reunir forças para mais uma noite. Para a Simone, o truque é “arranjar uma sombrinha, uma cidra, um maço de cigarros e música. Kit perfeito para a ressaca do dia anterior!”.

Aproveitando a deixa para falar de um assunto não menos importante, o que beber no Milhões? Tudo um pouco, claro. Da tradicional cerveja ao não menos tradicional vinho verde, passando por mojitos, cidras e até “bagaços no tasco mais refundido de Barcelos a 50 cêntimos” que prometem aventuras épicas.
E depois dos concertos, há um lugar para entreter as mocas com um som de fundo e um pézinho de dança? Garantiram-me que não faltam afters animados para curtir até à madrugada, quer estejas high on life ou noutra coisa qualquer. “Não me lembro de ter ido a nenhum after, por isso acho que devem ser fixes”, brinca a Daniela; o Zé responde-me, se calhar mais a sério, “vou a todos e não me lembro de nenhum”. Parece-me bem.

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Simone, à esquerda, em máximo chill.

Milhões de vibes

Dizem-me que “ir ao Milhões é como ir a uma reunião de família, mas em que a família são os amigos que estão longe e com quem nem sempre tens oportunidade de fazer a festa”, um lugar onde “encontras pessoas que conheces em todo o lado”, e que esse ambiente intimista é um dos pontos fortes do festival.
Também no departamento dos romances de verão constou-me que o Milhões de Festa dá tudo: “Muitos amores e desamores já vi acontecer no Milhões! Traições, paixões, desavenças, amor rebolando na relva, partilha de droguices e bebidas debaixo das árvores…”; e num contexto propício para o clima rolar, não faltam memórias como esta: “Fui expulsa da minha própria tenda! Isso nunca me aconteceu em mais nenhum festival!”.

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A Luísa, à esquerda, a passar som na piscina do Milhões.

E como são, afinal, os apaixonados pelo Milhões? Dizem-me que são “diferentões”, “metade wannabes, outra metade sinceros fiéis da boa música” ou ainda “hipsters que nem…”. A resposta da Luísa é quase um retrato falado: “ O público do Milhões apesar de normalmente ser descrito como «hipster» é, como toda a gente a quem é aplicado o termo «hipster», uma mistura bastante heterogénea de subculturas e backgrounds diferentes. Desde punks, metaleiros, stoners, malta local, malta do rock, da noite, da cena, pessoal estranho, pessoal menos estranho, pessoal com cabelo às cores, etc”. O Alex acrescenta ainda que é “pessoal mais velho, mais calmo, que sabe estar no festival”.

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Daniela, ninfa de Barcelos. Fotografia por Luísa Cativo.
O que fazer no Milhões? “Acho que podes fazer o que quiseres”, “o que te der na real gana, comer panados gigantes, dar mergulhos, fazer um crowdsurfing despretensioso, sei lá”, “dar umas furas na piscina, ver muitos concertos, aproveitar a cidade”, “passar no Taina a beber vinho verde e comer muito” e até “caçar Pokémons” se estiveres para aí virado. Não é aconselhável: “Ficar a beber no campismo e não ver os concertos”, “Se fores ao Taina beber vinho verde e comer muito não passes na piscina depois, para não arriscares ter uma congestão”.
Numa mistura de relax total e gandaia da boa, o Milhões de Festa continua a preservar aquilo que tem de mais característico e que parece arrastar multidões. Nas palavras do Bruno: “O preço e o local são bastante acessíveis, apoia a cultura underground e tambem é de valor um festival deste tamanho manter-se em pé sem a ajuda de grandes empresas de bebidas alcoólicas ou operadoras de telemóveis”. Na mesma linha de pensamento, outra pessoa diz-me que “o facto de não seres bombardeado por publicidade e brindes e marcas em todo o lado em todo o lado torna-o no festival mais user-friendly que conheço”.

Fiquei curiosa? Fiquei. Fiquei invejosa? Também. Este ano estou, mais uma vez, a queimar as pestanas em frente ao computador mas prometo ir espreitando os vossos retratos, fresquinhos e veraneantes. Divirtam-se milhões e depois contem-me como foi.