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“Deixa passar, deixa, deixa passar, deixa, eu sou galdéria e o mundo eu vou mudar!” cantavam em alto e bom som os homens e mulheres que marcharam pela Baixa do Porto no dia 11 de Julho, há um ano atrás. Numa tentativa de se emanciparem como cidadãos dignos e livres de preconceito, os manifestantes provocaram nos ouvidos dos portuenses uma chamada de atenção para a cultura da violação que está mais presente nesta alegada “sociedade desenvolvida” do que imaginamos.

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Marcha das Galdérias, 2015 – Imagem de PortugalGay.pt

Foi em 2011, em Toronto, que nasceu a Slutwalk, ou a também conhecida Marcha das Galdérias. Neste mesmo ano, um agente da polícia sentiu-se na obrigação de recomendar as mulheres a não se vestirem como “galdérias” de forma a prevenirem eventuais abusos. Este execrável comentário vindo de uma suposta figura de segurança e autoridade deu origem a uma manifestação que agregou o apoio e a adesão de diversos países, entre os quais Portugal se destacou como sendo o primeiro. Foi neste sentido que, posteriormente, deu-se a primeira Slutwalk neste país e o lema “Vestida ou nua, a rua também é tua” iluminou a noite portuense para a problemática em questão, e assim se tem mantido ano após ano, sensibilizando e alertando o maior número de pessoas.

É preocupante vivermos numa sociedade dita “evoluída” em termos de igualdade de género quando existe na gíria portuguesa um adjetivo que intitula uma mulher “atrevida”, “leviana” e “promíscua”, associando-a de forma degradante a uma prostituta. Pergunto-me muitas vezes pela razão da qual o trabalho sexual é frequentemente chamado à conversa de forma depreciativa e insultuosa. Uma mulher independente e de vestido curto é equiparada a uma mulher que tem relações sexuais a troco de dinheiro, como se ambas se tratassem de um ser inferior.

Pensando bem, a sociedade ainda se encontra um pouco alienada desde há uns anos atrás. Antigamente a mulher “pura” e “exemplar” não andava em trajes menores, vivia uma vida inteira à sombra do marido, satisfazendo todas as suas necessidades, como se a sua existência dependesse disso. Por outro lado, uma mulher solteira ou divorciada, com um emprego e ideias próprias era comparada a uma “galdéria” sem objetivos e noções, uma leviana que não ousou submeter-se à autoridade imaginária de um homem, tendo em conta que não era essa a sua vontade.
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Estamos agora no século XXI, mas esse tipo de descriminação ainda é um tanto ou quanto notório. Marina Menegazzo e María José Coni, duas turistas argentinas, foram monstruosamente assassinadas em Fevereiro deste ano, no decorrer de uma viagem a Montañita, no Equador. A culpa foi delas pois iam sozinhas, e por “sozinhas” entende-se “sem a companhia de um homem”. Jyoti Singh foi abusada sexualmente de forma escabrosa por seis homens em Nova Deli, na Índia, dentro de um autocarro. A culpa foi dela pois ainda se encontrava na rua, acompanhada por um rapaz amigo, àquela hora da noite. Em 2014, uma jovem de 16 anos foi abusada sexualmente por um homem nos seus 50 perto da Ponte D. Luís, no Porto, enquanto regressava a casa após uma saída à noite com os seus amigos. A culpa foi dela, pois eram cinco da manhã, estava sozinha e o local era pouco movimentado. Todas estas mulheres, entre muitas outras, foram vítimas da sociedade em que vivemos, uma sociedade que ensina o indivíduo a não ser violado, em detrimento de não violar. Uma sociedade onde um taxista me diz que “apenas 10% das mulheres abusadas não estavam a pedi-las”. Uma sociedade onde uma mulher que gosta de exibir o seu corpo está a pôr-se a jeito para eventuais críticas, assédio sexual ou julgamento alheio. E é por este tipo de mentalidade machista que a Marcha das Galdérias ocorre por mais um ano.

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A 24 de Setembro, Sábado passado, a chuva quase impediu os participantes de espalharem a sua mensagem na Baixa do Porto, mas dia 1 de Outubro arregaçarão novamente as mangas para reforçarem a ideia de que “não é não e se for sim eu aviso”. O ponto de encontro será às 22:00h na Praça dos Leões para prepararem os cartazes, as músicas e as palavras de ordem, e às 23:00h a marcha irá arrancar.

Todos estão convidados para representar a Marina, a María, a Jyoti, as restantes mulheres agredidas de forma física e/ou verbal e aquelas que, por vezes, sentem a necessidade de apertar o casaco junto ao peito ou de usar uma saia menos curta.

Após a Marcha anterior seguiu-se a festa Kosher nos Maus Hábitos, onde se brindou à luta pela igualdade de género e ao respeito pela integridade de cada um. Mas o movimento “Slutwalk” não ficou por aí, na página http://slutwalkporto.tumblr.com poderão encontrar diversos testemunhos prestados anonimamente referentes a casos de slut-shaming, assédio ou violência sexual, julgamento e opressão de género, entre os quais terão também a possibilidade de partilhar as vossas experiências ou revoltas. A organização cultural Kosher apoiará a divulgação destes testemunhos através da realização de pequenos vídeos que já podem ser visualizados na página da KosherDaCrew.